As tardes de domingo tornaram-se menos divertidas... Eu não tenho mais que ficar gritando você lá da cozinha para você descer e vir almoçar ou colocar o carvão na churrasqueira... A Jaqueline não tem mais o tio Bruno para ficar tocando violão ou levar ela para lanchar no Bobizinho.
E embora eu ainda tenha meu filho Lourencinho, que me deu uma neta linda que seria sua afilhada, e a Tata, minha filha escolhida pelo coração, minhas tardes de domingos são púmbleas...
Seu sorriso agora mora dentro de mim! Vivo uma gestação ao contrário!
Nada consegue substituir a força que uma mãe enlutada dá para outra! Essa relação de iguais nos torna irmãs gêmeas! Provei do doce sabor deste amor estes dois dias, quando minhas amigas irmãs do G.A.M.E. ao perceberem minha recaída se uniram em oração e revezamento para conversar comigo... É... Juntas Somos Fortes! E vocês amigas que ainda não procuraram um grupo de ajuda, o façam! Eles salvam vidas!
Desde que meu Bruno retornou a pátria espiritual, venho sendo tratada por psiquiatra... A grande maioria de nós precisa de substâncias químicas que nos ajudam a conviver com o luto.
Às vezes, retardo a compra de nova leva dos remédios e aí, caio facilmente em nova crise de depressão... Estou vivendo um período desses... Já estou há dias sem dormir direito... É muito cansativo isso... As madrugadas são cruéis e longas!
Amigas... Nunca abandonem o tratamento e nunca deixem de acreditar em Deus... Precisamos orar e vigiar!!!!
Um filho maravilhoso... Um justo... Um amigo solidário... Um amante de esportes e musica eletrônica, um tio, padrinho e amigo de crianças... Um louco por cachorros... Um advogado brilhante... Espírita que fazia questão de exercitar o evangelho... Amado pelos amigos,pais de amigos, professores... Admirado por muitos... Adorava beber uma vodka, escutar um "tunks-tunk" (música eletrônica), gostava de festas destas músicas... Aliás, meu filho adorava a noite!
Sua morte é um mistério... O delegado que estava no caso disse que ele cavou a própria morte afinal, de acordo com ele, meu Bruno foi a uma festa de música eletrônica onde, ainda de acordo com ele, tem drogas e o lugar é reconhecidamente de traficantes e milicianos...
O engraçado é que o IML até hoje, quase onze meses depois, não apresentou o laudo toxicológico...
O fato é que: meu filho surtou (de acordo com os "amigos"), arrancou a roupa e sumiu... Ninguém viu para onde... Quando apareceu 10 horas depois, estava morto com 03 tiros, várias escoriações a 30 km de onde desapareceu.
Querem saber como sobrevivo? Não sei... Tenho muita dor, me policio e até me penitencio quando tenho uma dose de mágoa com relação aos amigos que estavam com ele e insistem em dizer que não viram nada...
Hoje tudo o que me ajuda a sobreviver é a gratidão por ter vivido com um filho tão gente boa que chegava a ser ingênuo, carinhoso, meigo...
Com o tempo vou contando para vocês a minha saga. No entanto, preciso dizer que não teria conseguido sem minhas amigas irmãs do G.A.M.E - Grupo de Apoio as Mães Enlutadas.
Este grupo foi criado por uma jovem mãezinha que teve sua princesa num 30 de agosto e a desenvolveu para Pátria Espiritual exatos 30 dias posteriores. O nome dessa guerreira é Daniele Mendonça, a nossa Dani que junto com a Dayse, outra mãe enlutada do Anãozinho (#sqn) mais charmoso do pedaço, criaram o grupo no Núcleo Espírita Alan de Melo - NEAM, para ajudar outras mães enlutadas a passarem por seus lutos. Somos como irmãs... Sempre nos auxiliando em cada recaída e vibrando com cada avanço na busca do equilíbrio. Escolhemos VIVER! E escolhemos doar este amor preso em nosso peito a todos que dele precisam.
Também devo muito ao Grupo AMOR ALÉM DA VIDA, grupo criado pelos pais guerreiros do menino João Hélio, que hoje já auxilia vários espíritos desencarnados em situação de violência como ele. Eles me encaminharam a Casa Espírita Obreiros de Jesus na Tijuca.
Nesta casa já recebi 04 cartas psicografadas do meu Bruno Nicolau que muito alento me trazem. Na página inicial, coloquei o link das casas espíritas. Sabem, mãezinhas, paizinhos e familiares enlutados, descobri que fica menos pesado passar pelo luto quando encontramos pessoas que sofrem na pele a mesma dor que eu.
Entendi que quando nos unimos na dor, o amor nos fortifica! Percebi, que neste mundo de expiações em que ora estamos encarnados, Deus reservou a nós mães, que conhecemos os dois lados da moeda: o amor incondicional e a pior e mais dura das dores, a missão de orar pela regeneração do mundo. Juntas...
Unidas pela dor e sustentadas pelo amor solidário, temos a força e a fé necessárias para vibrar energias positivas e do BEM. Creio firmemente que somos as Marias encarnadas do Senhor!
* * *
PERDA DE ENTES QUERIDOS
"A dona de casa poderá perder uma agulha dentro do próprio lar e nunca mais encontrar.
O transeunte poderá perder um valor em dinheiro na via pública e nunca mais recuperar.
O milionário poderá perder sua fortuna e nunca mais lograr reavê-la.
Objetos e valores se perdem, almas não.
O ente querido que amamos, não o perdemos, com a morte.
Ela pode tirá-lo temporariamente da nossa convivência física; nunca, porém, o perderemos.
Não se desespere com a morte de um ente querido, porque ele não deixou de existir, de sentir e de amar.
Respeite os desígnios de Deus e continue amando-o até o dia do reencontro.
Os laços de amor que nos unem uns aos outros, quando verdadeiros, são “inquebráveis”.
É possível perder-se o corpo, mas não se pode perder o sentimento nobre do amor, porque a morte é incapaz de matar os sentimentos".
(Do livro “Jesus no teu dia-a-dia”, capítulo 47, pelo Espírito José de Moraes, psicografia do médium Agnaldo Paviani, Editora Didier).
Infelizmente, mais uma mãe estará esta noite amargando a tristeza da notícia da morte violenta de seu filho.
Estamos vivendo o final dos tempos... Uma briga acirrada entre o BEM e o MAL... Nossos filhos... Nossos familiares e amigos saem e a incerteza da volta trás um desconforto em nosso peito... Hoje estou revivendo o pior dia da minha vida... O dia em que meu filho desapareceu e que quando apareceu foi: nu com três tiros na região púbica que atingiram a femural.
Ainda tenho o doído momento em que me disseram: acharam... MORTO! E estes primeiros momentos são terríveis... É como estarmos em uma queda livre em um poço sem fundo... E nada... Nada consegue nos amparar! Eu agradeço aos meus pais a fé... Agradeço a Deus por me amparar... E por pior que tenha sido o tombo... Por mais dolorido... Mais dilacerante... Eu entendi que era preciso... Que havia uma programação a ser cumprida!
E eu sinto sim... Uma saudade angustiante do meu filho... Uma falta da presença física... Mas sei que a minha calma me ajudará no reencontro. Os dias são enormes... As noites... Nem se fala... A incompreensão dos que não entendem os laços do cordão umbilical entre dois seres machucam muito... E nós precisamos seguir... Dia a dia... Um dia de cada vez... Até o reencontro.
Como acredito no reencontro, deixo aqui uma música para vocês mãezinhas!
Ontem foi dia de assistir palestra no NEAM - Núcleo Espírita Alam de Melo... A casa fez todo um círculo de palestras entre abril e maio dedicado às mães do G.A.M.E. - Grupo de Apoio às Mães Enlutadas.
A palestra de ontem, foi com a mãe, empresária, escritora, mestre em Reiki, entre tantas outras funções - Andrea Murgel. A "Déia", como carinhosamente é chamada, palestrou sobre o luto e suas fases... E nos relatou toda a sua trajetória depois do retorno de seu filho Dudu à Pátria Espiritual.
Faz um tempo que já tenho o livro... Ele me foi indicado pela minha psiquiatra Dra. Danielle Hassene... O livro me fez entender o que eu estava passando e que respeitar meu tempo e as fases do meu luto, só dependeria de mim.
Este é o amor da minha vida... Pensando bem, acho que de muitas outras vidas! Nos conhecemos quando eu tinha apenas 16 anos... Namoramos 5 anos... Tudo muito intenso... E em 1980 nos casamos no civil e fizemos uma baita festa julina no Sítio do Sereno em Mazomba, onde meus pais descansavam da vida da cidade.
No curso desses 05 anos de namoro, entre idas e vindas, passamos a sonhar com nosso primeiro filho... Sim! Em nossas cabeças, nossa primeira gravidez geraria um menino que já tinha até nome: BRUNO NICOLAU! E Deus, em sua maravilhosa misericórdia, assim o permitiu... Atendeu a programação do meu menino e o enviou para que eu pela primeira vez na vida experimentasse o que é amor incondicional.
Bruno encarnou dia 20 de abril de 1981 às 16:15 na Maternidade do Hospital Fabiano de Cristo.
Neste dia, nossa família recebeu de uma tacada só 03 meninos lindos: ele e os gêmeos do meu irmão do coração. Foram dias de muitas descobertas...
Foi meu nascimento como mãe... Sou extremamente grata a Deus e ao meu amado filho pela oportunidade desta convivência e aprendizado.