A jarra de cristal...
Essa noite eu tive um sonho.
Não consigo me lembrar dele por inteiro... algumas coisas ficaram embaralhadas, outras simplesmente desapareceram assim que abri os olhos.
Mas uma coisa ficou.
Uma sensação forte... daquelas que permanecem mesmo quando o sonho já se foi.
Era como se alguém conversasse comigo... alguém que, no sonho, parecia um professor, alguém que me fazia pensar, organizar ideias, olhar para dentro... entender alguma coisa que talvez eu ainda não esteja conseguindo entender sozinha.
Acordei angustiada... ou talvez não seja bem essa a palavra.
Levantei, bebi água, voltei para a cama e dormi novamente.
E foi então que sonhei com duas mães enlutadas que conheci na época do GAME... aquele grupo de apoio a mães que, como eu, precisaram aprender a continuar vivendo depois da partida de um filho.
Acordei pensando nelas.
E, junto com elas, veio uma imagem...
Uma jarra de cristal.
Daquelas que a gente tem carinho... que gosta de conservar, de enfeitar a mesa, de colocar água, flores, coisas bonitas.
Uma jarra que, de repente, um dia... racha.
A rachadura fica ali, perto da boca.
E a gente continua colocando água.
Coloca mais...
Mais um pouco...
Até chegar perto da boca.
E então a água começa a escapar pela rachadura.
Vaza.
Verte.
E talvez seja assim o nosso coração depois que alguém que amamos morre.
A jarra somos nós.
A rachadura é a morte.
E a água... são as nossas emoções.
Porque a gente continua sendo capaz de amar, de lembrar, de sorrir, de viver, de colocar flores dentro da jarra.
Mas existe uma rachadura.
E ela não desaparece.
O que aprendemos, com o tempo, talvez seja a reconhecer o quanto de água podemos colocar ali.
Há dias em que conseguimos encher quase até a boca.
Conseguimos falar, lembrar, olhar fotografias, ouvir uma música, visitar lugares, contar histórias...
E há dias em que precisamos colocar menos.
Um pouco menos de água.
Não porque amamos menos.
Não porque esquecemos.
Não porque a saudade diminuiu.
Mas porque naquele dia... a nossa jarra não suporta tanto.
E está tudo bem.
Talvez o processo do luto seja exatamente esse...
Aprender que não precisamos jogar a jarra fora porque ela rachou.
Também não precisamos jogar fora a água.
Precisamos apenas aprender a respeitar o limite dela.
Colocar menos quando for necessário...
E, ainda assim, continuar colocando flores.
Porque a morte pode ter aberto uma rachadura em nós...
Mas não levou a capacidade de amar.
E talvez continuar vivendo seja isso:
Não tentar voltar a ser a jarra que éramos antes da rachadura.
Mas aprender a cuidar da jarra que somos agora.
Com mais delicadeza...
Com mais paciência...
Com menos cobrança...
E entendendo que haverá dias em que a água vai transbordar.
E haverá outros em que conseguiremos colocar flores e seguir.
Até que um dia percebamos que viver não significa ter consertado a rachadura.
Significa ter aprendido a conviver com ela.
Porque algumas ausências não se preenchem.
Algumas saudades não passam.
Alguns amores não terminam.
A gente apenas aprende...
Até onde pode encher a jarra.
E continua.
Com água...
Com flores...
Com amor...
Um dia de cada vez... cada dia um pouquinho... até o reencontro.
