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domingo, 14 de junho de 2026

Os Vícios que Não Chamamos de Vício!




Hoje eu queria falar sobre liberdade.
Depois de cinquenta dias na casa do meu filho, voltei para casa ontem. Confesso que estava apreensiva. Foram cinquenta dias convivendo intensamente com os meus netos, compartilhando risadas, brincadeiras, conversas e aquele amor que preenche a alma da gente.

 Eles ocupam a casa, ocupam a mente, ocupam os vazios do coração e fazem a felicidade transbordar pelos cantos.
Por isso, imaginei que voltar para a minha rotina seria difícil. Achei que a ausência daquela movimentação toda me impediria de dormir. Pensei que a saudade falaria mais alto, que os pensamentos tomariam conta da madrugada.

Mas não foi o que aconteceu.

Eu dormi.

Acordei algumas vezes, como costumo fazer naturalmente para beber água ou ir ao banheiro, mas voltei a dormir tranquilamente. Não tive pesadelos, não tive crises de ansiedade, não tive aquela inquietação que tantas vezes me acompanhou durante anos.

E foi então que me dei conta de uma conquista que, talvez, mereça ser celebrada muito mais do que eu costumo celebrar.
Eu consegui me libertar dos remédios para dormir.

Hoje parece simples dizer isso, mas quem já passou por esse processo sabe o quanto ele pode ser doloroso. Durante muito tempo, eu acreditava que jamais conseguiria adormecer sem um comprimido. Achava que o remédio era indispensável, que meu sono dependia dele.

Mas a verdade é que ele havia se tornado muito mais do que um auxílio. Ele havia se transformado em uma muleta emocional.
Comecei a usá-lo pouco tempo depois da morte do Bruno. Eu não queria pensar. Não queria enfrentar o silêncio da noite. Quem já perdeu alguém que ama sabe como a madrugada pode ser cruel. Durante o dia existem distrações, compromissos, pessoas ao redor. Mas à noite, quando tudo silencia, a dor costuma falar mais alto.

O remédio me permitia escapar disso.
E não apenas à noite.
Sempre que alguma situação me magoava profundamente, sempre que eu me sentia emocionalmente exausta, a solução parecia simples: tomar um comprimido e dormir algumas horas. Era uma forma de desligar a mente, ainda que temporariamente.

Sem perceber, fui criando uma dependência que eu não chamava de vício.
Porque existem vícios que chegam disfarçados de solução.

Eles não se apresentam como prisão. Pelo contrário. Apresentam-se como alívio.
Foi somente quando decidi abandonar esse hábito que compreendi o tamanho do desafio.
As primeiras semanas foram extremamente difíceis. Houve noites em que achei que não conseguiria suportar. Houve momentos de exaustão física e emocional. Houve dias em que a vontade de desistir parecia maior do que a determinação de continuar.

Mas eu continuei.

Com fé.

Com foco.

Com persistência.

E, aos poucos, meu corpo e minha mente foram reaprendendo aquilo que sempre souberam fazer: descansar naturalmente.
Hoje durmo bem. Durmo à noite. E, quando estou muito cansada, consigo até tirar um cochilo durante o dia sem que isso prejudique meu sono noturno.

Parece algo simples para quem nunca viveu essa dependência. Mas para mim representa uma enorme vitória.

Porque essa conquista não é apenas sobre dormir sem remédio.
É sobre ter descoberto que sou capaz de enfrentar minhas dores sem me anestesiar.
É sobre entender que algumas feridas só cicatrizam quando paramos de fugir delas.
É sobre perceber que a liberdade, muitas vezes, começa quando temos coragem de abandonar aquilo que acreditávamos ser indispensável.

Ontem, ao adormecer na minha casa depois de cinquenta dias longe, sem remédios, sem medo e sem sofrimento, recebi uma confirmação silenciosa:

A mulher que acreditava não conseguir dormir sozinha ficou para trás.
No lugar dela existe alguém que aprendeu que a paz não vem de um comprimido.
Ela nasce, lentamente, dentro de nós. 

"Existem cicatrizes que não desaparecem. Mas chega um dia em que elas deixam de ser feridas e passam a ser provas da nossa sobrevivência."