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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Quando o discurso não combina com a vida... a imagem conveniente para o todo!


Quando o discurso não combina com a vida

Por que eu desconfio da sinceridade de alguns defensores da esquerda?

Talvez porque eu tenha uma dificuldade enorme de acreditar em discursos que não encontram correspondência na vida de quem os profere.

Quando vejo alguém que veio essencialmente do povo, que conhece suas dificuldades, que subiu naturalmente os degraus da vida pública sem perder as próprias raízes, sem abandonar sua essência, eu consigo compreender. Posso até discordar de suas escolhas políticas, mas existe alguma coisa ali que me faz respeitar: a coerência entre a história e o discurso.

O que me causa estranheza é quando encontro defensores fervorosos de determinadas ideias, especialmente daqueles que pregam igualdade, simplicidade e desapego às diferenças sociais, mas que não abrem mão do perfume francês, do restaurante sofisticado, da toalha de linho puro, do vestido de grife, do sapato caro, dos privilégios que criticam quando pertencem ao outro.

E não é o perfume, o restaurante, o vestido ou o sapato que me incomodam.

Cada um vive como quer e com aquilo que pode.

O que me incomoda é quando a vida contradiz o discurso e, ainda assim, tenta-se convencer o outro de que não existe contradição alguma.

Talvez eu seja particularmente sensível a isso porque reconheço as minhas próprias incoerências.

Não fui uma funcionária perfeita. Longe disso. Houve um tempo em que fui uma funcionária maravilhosa. Depois, reconheço que fui entrando em um processo de decadência profissional. E não tenho nenhuma necessidade de que alguém maquie essa história para mim. Eu sei quem fui. Sei onde acertei e onde errei.

Assumir nossas próprias falhas talvez seja uma das formas mais difíceis — e mais bonitas — de honestidade.

Por isso, não tenho nenhuma intenção de sair por aí atirando pedras em quem considero hipócrita. Até porque aquilo que eu enxergo como incoerência pode, para outra pessoa, parecer absolutamente normal. Cada um constrói sua própria régua moral, seus próprios valores e suas próprias justificativas.

O que eu não aceito é que alguém queira colocar essa régua dentro da minha casa.

Podemos ser amigos. Podemos conversar. Podemos rir juntos. Podemos admirar as mesmas pessoas, gostar das mesmas músicas, compartilhar uma mesa e até discordar de quase tudo.

Mas existem divergências que não precisam ser transformadas em guerra.

Politicamente, porém, há momentos em que simplesmente não existe acordo.

E tudo bem.

Eu não preciso convencer você para ter o direito de pensar diferente.

Assim como você não precisa me convencer para que eu respeite o seu direito de pensar.

Talvez a verdadeira liberdade esteja justamente aí: na capacidade de conviver com quem pensa diferente sem precisar transformar o outro em inimigo.

Eu só não vou engolir conceitos nos quais não acredito.

Não porque me considere dona da verdade.

Mas porque, depois de tantos anos de vida, aprendi que existe uma coisa da qual não podemos abrir mão para agradar ninguém:

a coerência com aquilo que, dentro de nós, ainda reconhecemos como verdade.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A PEDRA, A RÉGUA E A INCOERÊNCIA HUMANA!



“Quem nunca pecou, atire a primeira pedra.”
A frase dita em Bíblia Sagrada atravessa séculos porque continua descrevendo exatamente quem somos.

Vivemos tempos em que muitos falam de Deus. Uns chamam Deus de Pai, outros de Alá, Oxalá, Jeová… pouco importa o nome dado em cada idioma, em cada crença, em cada religião. No fundo, todas pregam algo muito parecido: amor, compaixão, perdão, respeito, humanidade.

Mas de que adianta sermos tão religiosos, tão “crentes”, tão defensores da fé, se a régua que usamos para julgar o outro não tem absolutamente nada a ver com aquilo que aprendemos nas palavras sagradas?

É curioso como sabemos citar versículos, repetir ensinamentos, compartilhar mensagens bonitas… e, ainda assim, muitas vezes tratamos as pessoas com dureza, arrogância e crueldade.

Parece que existe uma enorme distância entre aquilo que pregamos e aquilo que praticamos.

Queremos misericórdia para os nossos erros, mas justiça severa para os erros alheios.
Pedimos compreensão para as nossas falhas, mas dificilmente oferecemos a mesma compreensão ao próximo.

Defendemos amor ao próximo… até que o próximo pense diferente de nós, erre diferente de nós ou viva diferente de nós.
E então surge a velha incoerência humana:
“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.”

Talvez a verdadeira espiritualidade não esteja na quantidade de vezes que alguém entra em um templo, em uma igreja ou em uma cerimônia religiosa. Talvez ela esteja na forma como essa pessoa olha para quem caiu.

Porque é muito fácil carregar a pedra nas mãos. Difícil é soltá-la.
Difícil é corrigir sem humilhar.
Discordar sem destruir.
Ter fé sem arrogância.
Defender valores sem perder a humanidade.

Afinal, ninguém passa pela vida sem errar. Ninguém é completamente puro a ponto de ter autoridade moral para apedrejar o outro sem antes olhar para si mesmo.

No fim, talvez Deus — independentemente do nome que cada um lhe dê — esteja menos interessado nos discursos que fazemos sobre fé e muito mais interessado na maneira como fazemos as pessoas se sentirem quando cruzam o nosso caminho.