Mostrando postagens com marcador dores abdominais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dores abdominais. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

QUANDO O PACIENTE DEIXOU DE SER OUVIDO COM MAIS APURO?

QUANDO O PACIENTE DEIXA DE SER OUVIDO?

Ontem eu não estava bem.

Na verdade, a madrugada anterior tinha sido uma daquelas que a gente gostaria de apagar da memória.

Muita dor. Uma dor intensa no abdômen, principalmente na parte superior esquerda. Uma sensação estranha, acompanhada de barulhos no estômago que eu nunca tinha sentido daquela maneira. Depois vieram o enjoo e os vômitos... e o que mais me assustou foi perceber que o vômito estava escuro.

Amanheceu e pedi ao meu marido que me levasse à emergência.

Saímos de Muriqui em direção a Santa Teresa, debaixo de chuva, enfrentando um trânsito que já é difícil em dias normais. Levamos mais de três horas.

Cheguei à emergência com muita dor, cansada, depois de uma madrugada inteira sem dormir.

E quero começar fazendo uma ressalva muito importante:

Eu não fui maltratada.

Muito pelo contrário.

Fui bem recebida na recepção. A enfermeira da triagem foi atenciosa. A enfermeira que administrou a medicação também. O médico me tratou com educação.

Então não é sobre grosseria.

Não é sobre falta de respeito.

É sobre outra coisa...

É sobre a sensação de que faltou investigação.

Eu contei tudo o que estava acontecendo. Expliquei que sou bariátrica. Relatei a dor, os vômitos, a mudança na aparência do vômito, os sintomas que haviam surgido antes.

E fiquei surpresa quando percebi que meu abdômen sequer foi examinado fisicamente.

Não houve aquele exame que nós, pacientes, esperamos de um médico diante de uma dor abdominal: apertar, palpar, procurar onde dói mais, observar a reação do corpo, tentar entender o que aquela dor está dizendo.

A consulta pareceu se concentrar em um único aspecto do meu relato.

O mais simples.

O mais rápido.

E eu saí de lá medicada, sim. A dor melhorou, o enjoo melhorou...

Mas a minha pergunta continuou comigo:

E a causa?

É aí que começa a minha inquietação.

Será que estamos construindo uma medicina em que o tempo de consulta ficou tão curto que o médico precisa escolher rapidamente uma hipótese e seguir adiante?

Será que os protocolos, as autorizações, os custos e a necessidade de controlar despesas estão interferindo, ainda que indiretamente, na profundidade da investigação?

Eu não estou dizendo que o médico recebeu uma ordem para ser superficial.

Eu não tenho como afirmar isso.

Estou perguntando.

Porque existe uma diferença enorme entre atender um paciente e investigar um paciente.

E talvez essa diferença esteja passando despercebida por nós.

Eu penso também em nós dois, meu marido e eu, já idosos, saindo de tão longe, debaixo de chuva, enfrentando horas de estrada e trânsito, chegando a um hospital com uma pessoa em dor intensa, depois de uma madrugada inteira sem dormir...

Será que o sistema de saúde está conseguindo enxergar a pessoa que existe por trás do prontuário?

Ou estamos nos tornando apenas uma queixa, um código, um protocolo, uma medicação e um exame solicitado?

Eu reconheço que ninguém pode fazer todos os exames possíveis em todo paciente.

Eu reconheço que medicina não é adivinhação.

Eu reconheço que o médico precisa trabalhar com hipóteses e probabilidades.

Mas também acredito que uma boa medicina começa pela escuta e passa pelo olhar, pelo toque, pela investigação e pela capacidade de juntar as peças.

Eu saí da emergência melhor da dor.

Mas não saí tranquila.

E talvez essa seja a questão mais grave de todas:

Quando o paciente deixa o hospital medicado, mas continua sem entender o que aconteceu com ele, será que o atendimento terminou?

Ou será que apenas terminou a consulta?

Não quero acusar.

Quero provocar reflexão.

Porque saúde não pode ser apenas uma questão de custo, protocolo e velocidade.

Do outro lado daquela ficha existe uma pessoa.

E, algumas vezes, tudo o que essa pessoa espera é que alguém pare por alguns minutos e realmente tente descobrir o que o corpo dela está dizendo...

Um dia de cada vez... cada dia um pouquinho...