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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A preguiça que ninguém consegue enxergar



Tem períodos do ano em que ficar de pé, fazer as coisas da casa, cumprir aquilo que a vida espera da gente… fica difícil.

Muito difícil.

É um desânimo que parece sobrenatural. Uma falta de energia que não se explica. O corpo pesa, os braços doem, as pernas doem, a cabeça não acompanha. E, junto com tudo isso, vem uma tristeza que, muitas vezes, nem sabemos de onde vem.

Mas, aos olhos dos outros, tudo isso pode ter um nome muito simples e muito cruel:

preguiça.

Já falei sobre isso uma vez, mas algumas coisas precisam ser repetidas, porque continuam acontecendo.

As pessoas não estão preparadas para conviver com quem tem uma doença crônica, uma doença autoimune, principalmente quando ela é invisível.

É muito difícil se colocar no lugar do outro quando você não consegue enxergar aquilo que ele sente.

Você não vê a dor.

Não vê o cansaço.

Não vê a inflamação.

Não vê o esforço necessário para realizar aquilo que, para você, parece tão simples.

Você só vê a pessoa parada.

Deitada.

Sem disposição.

E, se não existe empatia, a sentença vem rapidamente:
“Ela é preguiçosa.”

Pois é…

Já faz alguns dias que estou vivendo o meu período “preguiçosa”.

Tenho vontade de ficar na cama o dia inteiro.

Não porque não tenha coisas para fazer. Tenho.

E faço.

Faço a comida. Lavo a louça. Varro o chão. Resolvo o que precisa ser resolvido.

Mas faço tudo pagando um preço que ninguém vê.

Às vezes, depois de uma tarefa simples, meus braços doem. As pernas doem. O corpo inteiro parece pedir para parar.

E eu paro.

Não porque desisti.

Porque, naquele momento, é o que meu corpo está me pedindo.

Hoje, por exemplo, até a claridade do dia me incomoda.

É uma claridade estranha, espelhada, quase agressiva. Minha experiência já me diz que provavelmente vem chuva mais tarde. Mas, enquanto ela não chega, aquela luz me irrita, me agride.

Pode parecer exagero para quem olha de fora.

Para quem não sente, talvez seja mesmo difícil compreender.

Mas esse é o problema das doenças invisíveis: elas exigem do outro uma coisa que nem todo mundo sabe oferecer.

Compreensão sem prova.

Você precisa acreditar naquilo que não consegue enxergar.

E talvez seja justamente aí que a empatia comece.

Eu queria que as pessoas entendessem que nem todo silêncio é desinteresse. Que nem toda cama é acomodação. Que nem toda falta de energia é preguiça.

Às vezes, existe uma batalha acontecendo dentro de um corpo que, por fora, parece perfeitamente normal.

E talvez uma das coisas mais difíceis seja justamente essa: ter dor e ainda precisar explicar que está com dor.

Ter cansaço e precisar provar que não é preguiça.

Ter limitações e ainda sentir culpa por não conseguir fazer tudo.

E, no meu caso, existe ainda outra dificuldade: nem sempre é possível tratar uma doença como gostaríamos, porque existe outro problema de saúde que torna determinada medicação incompatível.

E aí a gente aprende uma lição difícil:

Há doenças que não permitem simplesmente dizer:
“tome um remédio e fique bem.”

Às vezes, a gente precisa conviver.

Adaptar.

Esperar.

Respeitar o próprio corpo.

E aprender, principalmente, a não se culpar.

Então, se hoje eu estiver mais quieta, mais cansada, se eu quiser ficar na cama, se eu não conseguir dar conta de tudo…

Talvez eu não esteja com preguiça.

Talvez eu esteja apenas fazendo o possível para atravessar mais um daqueles períodos em que o meu corpo me lembra que ele também tem limites.

E tudo o que eu gostaria, nesses dias, não é de pena.

É de compreensão.

Porque doença invisível também dói.

E, às vezes, o maior cansaço não vem da doença.

Vem de precisar convencer os outros de que ela existe.