Por que eu desconfio da sinceridade de alguns defensores da esquerda?
Talvez porque eu tenha uma dificuldade enorme de acreditar em discursos que não encontram correspondência na vida de quem os profere.
Quando vejo alguém que veio essencialmente do povo, que conhece suas dificuldades, que subiu naturalmente os degraus da vida pública sem perder as próprias raízes, sem abandonar sua essência, eu consigo compreender. Posso até discordar de suas escolhas políticas, mas existe alguma coisa ali que me faz respeitar: a coerência entre a história e o discurso.
O que me causa estranheza é quando encontro defensores fervorosos de determinadas ideias, especialmente daqueles que pregam igualdade, simplicidade e desapego às diferenças sociais, mas que não abrem mão do perfume francês, do restaurante sofisticado, da toalha de linho puro, do vestido de grife, do sapato caro, dos privilégios que criticam quando pertencem ao outro.
E não é o perfume, o restaurante, o vestido ou o sapato que me incomodam.
Cada um vive como quer e com aquilo que pode.
O que me incomoda é quando a vida contradiz o discurso e, ainda assim, tenta-se convencer o outro de que não existe contradição alguma.
Talvez eu seja particularmente sensível a isso porque reconheço as minhas próprias incoerências.
Não fui uma funcionária perfeita. Longe disso. Houve um tempo em que fui uma funcionária maravilhosa. Depois, reconheço que fui entrando em um processo de decadência profissional. E não tenho nenhuma necessidade de que alguém maquie essa história para mim. Eu sei quem fui. Sei onde acertei e onde errei.
Assumir nossas próprias falhas talvez seja uma das formas mais difíceis — e mais bonitas — de honestidade.
Por isso, não tenho nenhuma intenção de sair por aí atirando pedras em quem considero hipócrita. Até porque aquilo que eu enxergo como incoerência pode, para outra pessoa, parecer absolutamente normal. Cada um constrói sua própria régua moral, seus próprios valores e suas próprias justificativas.
O que eu não aceito é que alguém queira colocar essa régua dentro da minha casa.
Podemos ser amigos. Podemos conversar. Podemos rir juntos. Podemos admirar as mesmas pessoas, gostar das mesmas músicas, compartilhar uma mesa e até discordar de quase tudo.
Mas existem divergências que não precisam ser transformadas em guerra.
Politicamente, porém, há momentos em que simplesmente não existe acordo.
E tudo bem.
Eu não preciso convencer você para ter o direito de pensar diferente.
Assim como você não precisa me convencer para que eu respeite o seu direito de pensar.
Talvez a verdadeira liberdade esteja justamente aí: na capacidade de conviver com quem pensa diferente sem precisar transformar o outro em inimigo.
Eu só não vou engolir conceitos nos quais não acredito.
Não porque me considere dona da verdade.
Mas porque, depois de tantos anos de vida, aprendi que existe uma coisa da qual não podemos abrir mão para agradar ninguém:
a coerência com aquilo que, dentro de nós, ainda reconhecemos como verdade.