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terça-feira, 8 de setembro de 2026

CARTAS QUE CHEGAM ONDE A SAUDADE NÃO CONSEGUE CHEGAR


Hoje eu quero falar de um assunto polêmico, daqueles que estão sendo debatidos nas redes sociais, na televisão e em todos os cantos.

E quero falar não como alguém que simplesmente ouviu falar. Quero falar como mãe enlutada. Como alguém que, há onze anos, conhece de perto o abismo que é perder um filho.

Quero falar sobre os médiuns e, especialmente, sobre as chamadas cartas consoladoras.

Antes de qualquer discussão, antes de qualquer julgamento, antes de qualquer tentativa de desqualificar alguém, talvez fosse importante lembrar de uma coisa: existem pessoas do outro lado dessas cartas. Pessoas que estão sofrendo. Pessoas que perderam filhos, pais, irmãos, companheiros, netos, amigos. Pessoas tentando sobreviver à ausência.

Eu recebi uma carta alguns meses depois da morte do meu filho, Bruno.

Foi escrita por um médium de Sergipe, um rapaz que jamais havia me visto. E aquela carta trazia informações que, para mim, eram absolutamente inimagináveis de serem encontradas nas redes sociais.

Ele mencionava, inclusive, o número da OAB do Bruno, o e-mail e até uma senha que eu sequer conhecia.

E havia detalhes muito mais profundos. Coisas íntimas, nossas, pertencentes à nossa história familiar. Coisas que não estavam publicadas em lugar algum.

Eu não estou aqui para exigir que ninguém acredite naquilo em que eu acredito.

Não estou dizendo que toda carta é verdadeira. Não estou dizendo que todo médium é legítimo. E muito menos que qualquer pessoa que se apresente como médium esteja acima de questionamentos.

Fraude deve ser investigada. Engano deve ser denunciado.

Mas existe uma diferença enorme entre investigar e destruir.

Existe uma diferença entre questionar e transformar a dor alheia em espetáculo.

E é justamente isso que me incomoda profundamente quando vejo determinadas abordagens na televisão e nas redes sociais.

Porque, quando se coloca um médium no centro de uma exposição pública, muitas vezes não existe apenas um profissional sendo questionado.

Existe uma mãe assistindo.

Existe um pai.

Existe uma família inteira.

Existe alguém que talvez tenha encontrado naquela carta o primeiro fio de esperança depois de uma tragédia.

Para quem está de fora, pode parecer apenas uma folha de papel.

Para quem perdeu alguém, pode ser muito mais do que isso.

Pode ser um abraço.

Pode ser uma oportunidade de respirar depois de meses vivendo com a sensação de que o mundo acabou.

Pode ser aquilo que ajuda uma pessoa a continuar caminhando.

Eu sei disso porque vivi isso.

E talvez por isso eu me sinta no direito — e até no dever — de pedir um pouco mais de respeito.

Não estou pedindo que a imprensa deixe de investigar. Estou pedindo que a dor humana não seja esquecida no caminho da audiência.

Tenho profunda solidariedade por Maira.

Tenho solidariedade também por Fernando Ben, que, como tantos outros, passou por momentos extremamente difíceis diante de questionamentos, exposições e julgamentos públicos.

E eu me pergunto:

Será que, em algum momento, nós vamos compreender que nem tudo precisa ser transformado em espetáculo?

Há coisas que pertencem ao território da fé.

Há coisas que pertencem ao território da ciência.

Há coisas que pertencem ao território da investigação.

E há coisas que pertencem ao território íntimo de quem sofre.

Eu não quero convencer ninguém da existência da comunicação entre vivos e mortos.

Eu só peço que não tirem de quem acredita o direito de encontrar, através da fé, uma maneira de continuar vivendo.

Porque quem nunca perdeu um filho talvez não consiga compreender.

Mas quem já esteve naquele lugar sabe:

às vezes, uma palavra de esperança não precisa provar o céu. Ela só precisa ajudar alguém a sobreviver à Terra.

E, para mim, algumas dessas cartas fizeram exatamente isso.

Por isso, antes de destruir um médium, antes de transformar uma carta consoladora em manchete, antes de julgar aquilo que não compreendemos, talvez devêssemos pensar em quem está segurando aquela carta do outro lado.

Talvez ali esteja alguém apenas tentando encontrar forças para viver mais um dia.

E isso, por si só, já deveria merecer respeito.