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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Graças a Deus eu tenho...

Quando a dor nos faz olhar para o outro...

Não é fácil.

Não é fácil conviver com a dor todos os dias... e, quando chega uma friagem dessas que tem castigado o Rio de Janeiro e tantas regiões do Sudeste e do Sul, parece que o corpo inteiro sente.

Para quem convive com artrite reumatoide e fibromialgia, o frio pode significar mais do que simplesmente precisar colocar um agasalho.

É dor.

É desconforto.

É mal-estar.

É aquele corpo que parece reclamar de cada movimento... como se a friagem encontrasse exatamente os lugares onde já existe sofrimento e resolvesse apertá-los um pouco mais.

E, ao mesmo tempo, há coisas que parecem contraditórias...

Um tempo extremamente úmido e, ainda assim, aquela sensação de ressecamento nos olhos, nas mucosas... um incômodo que vai se somando a tantos outros.

Meu Deus... é cruel.

Mas hoje, no meio dessa minha própria dor, uma coisa não sai da minha cabeça:

graças a Deus, eu tenho.

Tenho um agasalho.

Tenho cobertas.

Tenho uma casa.

Tenho um teto.

Tenho abrigo.

Tenho condições de buscar algum alívio, ainda que não possa utilizar tudo aquilo que seria o tratamento mais adequado para mim.

Tenho outras condições de saúde que limitam algumas possibilidades, mas ainda posso contar com medidas paliativas para atravessar esses períodos.

E então eu penso em quem não tem.

Quem sente frio sem ter um agasalho.

Quem sente dor sem ter um teto.

Quem dorme sem saber se estará protegido da chuva, do vento, da friagem...

Quem precisa de um medicamento e simplesmente não pode comprá-lo.

E talvez uma das coisas mais cruéis da dor seja justamente esta:

quem não sente na própria pele aquilo que o outro sente pode acabar julgando aquilo que não compreende.

“É só uma dor.”

“É só frio.”

“É só cansaço.”

Não...

Às vezes, para quem carrega uma doença crônica, o que parece pequeno para os olhos de quem observa pode ser gigantesco para quem está vivendo.

E isso me faz pensar ainda mais em quem não tem sequer o mínimo para amenizar aquilo que sente.

Eu tenho uma consciência espiritual que me ensina que nem tudo aquilo que vivemos precisa ser compreendido imediatamente. Há experiências que atravessamos, aprendizados que fazemos, reformas íntimas que precisamos buscar...

Mas existe uma coisa que eu ainda não consigo fazer:

ficar indiferente diante do sofrimento do outro.

Talvez porque a minha própria dor tenha me ensinado que sentir dor muda a maneira como enxergamos o mundo.

E, quando a dor nos torna mais sensíveis à dor alheia, talvez ela também possa se transformar em alguma coisa maior do que sofrimento.

Pode se transformar em compaixão.

Em gratidão.

Em oração.

Em vontade de fazer alguma coisa.

Hoje, portanto, antes de reclamar somente do frio que dói em mim, eu quero agradecer pelo teto que me protege.

Pelas cobertas que me aquecem.

Pelo agasalho que posso vestir.

Pelo alimento que tenho.

Pelo recurso que, dentro das minhas possibilidades, ainda consigo buscar.

E quero pedir por aqueles que não têm.

Porque, meu Deus...

tem piedade de nós.

Olha pelos que sentem frio.

Pelos que sentem fome.

Pelos que sentem dor.

Pelos que não conseguem comprar o medicamento de que precisam.

Pelos que não têm onde descansar o corpo quando a noite chega.

E, principalmente, não permita que a nossa própria dor nos torne indiferentes à dor do outro.

Dá-nos misericórdia.

Dá-nos força.

Dá-nos sensibilidade para enxergar.

E coragem para ajudar quando pudermos.

Porque há dias em que continuar é difícil...

Muito difícil.

Mas talvez seja justamente nesses dias que precisamos nos lembrar:

um dia de cada vez... cada dia um pouquinho... até o reencontro.

E que, enquanto estivermos aqui, que a nossa dor não seja apenas algo que carregamos...

Que ela também possa nos ensinar a carregar um pouquinho da dor do outro.