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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O preço do medo e o valor da liberdade!


O PREÇO DO MEDO E O VALOR DA LIBERDADE

Como agem os criminosos, os corruptos, os arrogantes que acreditam ser donos do poder?

Escolhem um alvo. Um boi de piranha. Alguém que ouse contrariar suas determinações, desafiar seus interesses ou simplesmente exercer o direito de pensar diferente.

E, quando não conseguem calar pela intimidação, tentam aniquilar de outras maneiras. Às vezes, pela violência física. Outras, pela destruição moral, pela perseguição psicológica, pelo isolamento e pela tentativa de transformar a vida de quem ousa enfrentá-los num inferno.

O objetivo é um só: fazer de uma pessoa um exemplo para milhares. Não basta atingir aquele que se levantou. É preciso que todos os outros assistam e pensem duas vezes antes de fazer o mesmo.

É a velha política do medo. Uma mensagem covarde, mas calculada: olhem o que acontece com quem nos contraria!

E é impossível não pensar no caso do pernambucano Fred William, cuja morte levanta questões dolorosas sobre os riscos enfrentados por quem se posiciona em ambientes marcados por disputas de poder. As circunstâncias e eventuais motivações precisam ser devidamente apuradas, mas uma coisa não podemos aceitar: que o medo se transforme em instrumento para impedir alguém de exercer sua liberdade de opinião.

Lembro-me de uma história que vi quando ainda era criança. Não sei se numa novela ou numa reportagem. Havia uma pessoa sequestrada, e os criminosos exigiam um resgate. Mas, em vez de simplesmente aceitar a chantagem, a família oferecia uma recompensa muito maior a quem fornecesse informações capazes de levar ao paradeiro dos sequestradores.

Aquela lembrança ficou comigo.

E hoje penso que talvez seja exatamente isso que o Brasil precise compreender.

Há décadas, uma parcela da população vem pagando um resgate que nunca termina.

Paga com a vida dos seus filhos. Com a insegurança dentro de casa. Com a liberdade perdida. Com a miséria que se perpetua, com a educação que não transforma realidades e com a ignorância que impede tantas pessoas de enxergar as engrenagens que as mantêm prisioneiras.

E o pior: essa conta passa de uma geração para outra.

Os criminosos cobram em medo. Os corruptos cobram em oportunidades roubadas. Os que se alimentam da miséria alheia cobram em dependência, submissão e silêncio.

E o povo paga... paga sem perceber, muitas vezes acreditando que não existe alternativa.

Mas e se existir?

E se houver quem esteja disposto a oferecer algo infinitamente mais valioso do que o resgate exigido pelos que aprisionam uma sociedade?

Não dinheiro para comprar consciências, nem promessas vazias para conquistar aplausos.

Mas coragem para enfrentar estruturas, compromisso com a verdade, justiça que não escolha seus destinatários e oportunidades reais para que as pessoas deixem de depender daqueles que lucram com suas necessidades.

E se a recompensa oferecida ao povo for a esperança de um futuro em que seus filhos possam viver sem medo?

Um futuro em que discordar não seja uma sentença. Em que a opinião não custe a vida. Em que trabalhar honestamente seja suficiente para viver com dignidade. Em que a escola abra portas, e não apenas mantenha crianças dentro de salas. Em que a segurança pública proteja o cidadão, e a Justiça não seja instrumento de conveniência dos poderosos.

É disso que estamos falando!

De romper um ciclo perverso que atravessa décadas e ameaça continuar por gerações.

Porque o povo não nasceu para ser massa de manobra, refém de criminosos ou instrumento dos interesses de quem deseja permanecer no poder a qualquer preço.

O povo precisa compreender que a sua força não está em se submeter ao medo, mas em reconhecer o próprio valor, buscar informação, cobrar resultados e exercer sua cidadania com consciência.

O medo quer que você acredite que nada pode mudar. A esperança convida você a participar da mudança.

E talvez seja exatamente aí que esteja a maior ameaça para aqueles que precisam de uma população acuada: descobrir que as pessoas estão deixando de ter medo e começando a acreditar que merecem algo melhor.

Não se trata de trocar um senhor por outro.

Trata-se de deixar de ser refém.

Porque não existe liberdade verdadeira quando o cidadão precisa escolher entre se calar e correr riscos. Não existe democracia plena quando a intimidação substitui o debate. E não existe futuro digno quando a vida humana vale menos do que os interesses de quem se considera intocável.

Chega de pagar, com o sangue dos nossos filhos, a conta da covardia alheia!

Que a recompensa oferecida ao Brasil seja a liberdade. Que o preço da mudança seja a coragem de cada cidadão consciente. E que o futuro deixe de ser uma promessa usada para nos manter esperando e se transforme numa realidade construída por todos nós.

Porque o medo pode até calar uma voz por algum tempo...

Mas não conseguirá calar para sempre um povo que finalmente compreendeu o preço da própria submissão e o valor da sua liberdade.

O Brasil não precisa de donos. Precisa de cidadãos livres.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

EM QUE MOMENTO NÓS NOS PERDEMOS?


Em que momento nós nos perdemos?

Há imagens que a gente assiste e gostaria de poder esquecer.

Mas algumas imagens não deveriam ser esquecidas.

Um pai caminhando tranquilamente com a filha pequena, aparentemente a caminho da escola. Uma criança ao seu lado, seguindo a rotina de qualquer manhã. Até que um carro se aproxima e, segundo o que mostram as imagens, homens atiram contra ele sem demonstrar qualquer preocupação com a presença daquela criança.

O motivo que levou à execução não é o que quero discutir aqui.

Porque existe algo ainda mais assustador do que tentar compreender por que alguém decidiu matar outro ser humano: é perceber que, naquele momento, aparentemente não houve sequer a preocupação de poupar uma criança do horror.

E isso me faz pensar que alguma coisa muito profunda se rompeu.

Durante muito tempo, mesmo no universo brutal da criminalidade, existiam limites que pareciam ser reconhecidos. Crianças, idosos, famílias... havia, ou pelo menos se imaginava haver, determinados códigos que não deveriam ser ultrapassados.

Hoje, até isso parece estar desaparecendo.

A vida humana está sendo banalizada.

A morte virou uma cena cotidiana. Um corpo no chão, tiros disparados em plena rua, pessoas correndo, alguém filmando, alguém comentando nas redes sociais... e, pouco depois, seguimos para o próximo assunto.

Como se a vida tivesse perdido o seu valor.

Como se matar fosse apenas mais um acontecimento.

E o que mais me assusta é que não estamos falando apenas de criminosos cada vez mais violentos. Estamos falando de uma sociedade que está sendo obrigada a conviver diariamente com o medo, com a insegurança e com a sensação de que ninguém está realmente protegido.

Hoje é um pai levando a filha para a escola.

Amanhã pode ser alguém indo trabalhar.

Uma mãe voltando para casa.

Um idoso atravessando a rua.

Uma criança brincando na calçada.

Quem será o próximo?

E não estou falando de uma cidade específica. O problema ultrapassou fronteiras. É um sentimento que alcança diferentes lugares deste país.

E nós vamos ficando cansados.

Cansados de assistir.

Cansados de sentir medo.

Cansados de ouvir histórias de pessoas assassinadas, assaltadas, sequestradas, vítimas de uma violência que parece não encontrar mais freios.

Cansados de precisar calcular caminhos, horários, lugares e riscos.

Cansados de tentar proteger quem amamos.

E talvez o mais perverso de tudo seja isso: a violência não mata apenas pessoas. Ela vai matando, aos poucos, a nossa sensação de liberdade.

A gente começa a ter medo de sair.

Medo de voltar.

Medo de estar no lugar errado, na hora errada.

Medo por nossos filhos, nossos netos, nossos pais.

E como continuar vivendo assim sem adoecer por dentro?

Como não sentir angústia diante de um mundo em que uma criança pode presenciar o assassinato do próprio pai simplesmente porque estava caminhando ao lado dele?

Eu me pergunto, sinceramente:

Em que momento nós nos perdemos enquanto humanidade?

Em que momento a vida passou a valer tão pouco?

Em que momento a crueldade deixou de chocar?

Em que momento uma criança deixou de ser um limite?

E, principalmente, até onde nós vamos?

Eu não tenho uma resposta.

Mas ainda quero acreditar que existe salvação.

Porque, se eu deixar de acreditar nisso, então a violência terá conseguido levar mais do que vidas. Terá levado também a nossa esperança.

Talvez a salvação comece justamente quando a gente se recusa a considerar o absurdo normal.

Quando uma morte ainda nos revolta.

Quando uma criança ainda nos faz parar e pensar.

Quando nos recusamos a dizer simplesmente: “É assim mesmo.”

Não. Não deveria ser assim.

Uma sociedade que perde a capacidade de se indignar diante da morte já começou a morrer também.

Por isso, diante dessas imagens, eu não quero apenas sentir medo.

Quero fazer a pergunta que talvez todos nós precisemos fazer:

Que país estamos deixando para nossas crianças?

E, se ainda houver salvação — e eu quero acreditar que há —, talvez ela comece quando decidirmos que a vida humana precisa voltar a ter valor.

Toda vida.

Sem exceção.

Porque quando uma criança deixa de ser um limite para a violência, não é apenas aquela família que está em perigo.

Somos todos nós.

domingo, 9 de agosto de 2026

QUANDO A INVESTIGAÇÃO QUE NÃO ACONTECEU TAMBÉM VIRA PARTE DO LUTO...


Há dias em que o luto parece adormecido.
E há dias em que basta um nome.

Hoje, sem querer, vi o nome do delegado que estava à frente da Delegacia de Homicídios da Barra em 2015. E, junto com aquele nome, voltou uma história que eu gostaria de conseguir colocar em algum lugar definitivo da minha memória.

Meu filho mais velho foi a uma festa de música eletrônica para homenagear o irmão da mulher que amava.

Foi a uma festa.

E não voltou.

Três tiros tiraram sua vida.

Até hoje, quando penso nisso, algumas perguntas continuam me perseguindo.
O que pensar quando você recebe a notícia de que seu filho foi assassinado e não sabe por quem, nem por quê?

O que pensar quando um crime acontece dentro de uma festa, diante de tantas pessoas, e, de repente, parece que todos emudecem?

Nenhuma história circulando.

Nenhuma fofoca.

Nenhuma postagem.

Nenhuma informação que ajudasse a entender o que havia acontecido.

Em tempos em que as pessoas fotografam, filmam e publicam absolutamente tudo, como pode um assassinato acontecer em meio a uma multidão e, depois, existir tamanho silêncio?

E talvez a pergunta mais dolorosa seja outra:
O que pensar quando você espera que o Estado investigue a morte do seu filho e fica com a sensação de que essa investigação nunca aconteceu de verdade?

Eu não sou uma mulher ignorante.

Sou uma mãe. E mãe, quando tem um filho assassinado, não consegue simplesmente sentar e esperar.

Eu fui atrás.

Pesquisei. Procurei nomes. Procurei informações. Cruzei histórias. Tentei entender quem eram as pessoas que estavam naquela festa, o que havia acontecido, quem poderia saber alguma coisa.

Não porque eu quisesse brincar de detetive.
Mas porque era o meu filho.
E quando uma mãe percebe que as respostas não chegam, ela procura as respostas onde consegue.

O tempo passou.
O crime continuou sem resposta para mim.

E hoje, quase onze anos depois, eu me deparo novamente com o nome daquele delegado.
E descubro que o homem que ocupava aquela posição de autoridade, aquele a quem cabia conduzir uma investigação sobre a morte do meu filho, está preso há alguns anos por envolvimento em outros crimes.

Isso não me permite afirmar que ele tenha cometido qualquer irregularidade no caso do meu filho.

Mas me permite fazer perguntas.

Perguntas que talvez eu nunca consiga deixar de fazer.

Será que tudo foi investigado como deveria?

Será que todas as pessoas foram ouvidas?

Será que todas as informações foram consideradas?

Será que tudo aquilo que poderia ter levado à verdade foi realmente perseguido?

Será que alguma coisa foi deixada de lado?
Será que houve omissão?

E, principalmente:
por que eu, mãe de um homem assassinado, fiquei com tantas perguntas e tão poucas respostas?

Não estou escrevendo isso para condenar ninguém.
Estou escrevendo porque existe uma diferença enorme entre aceitar que um crime não foi solucionado e acreditar que ele foi investigado com toda a seriedade que a vida de um ser humano exige.

Meu filho não era um número.
Não era mais um registro numa ocorrência policial.
Não era apenas mais um homicídio.
Era Bruno.
Era meu filho.
Era o filho de alguém, irmão de alguém, amigo de alguém, homem amado por alguém.

E quando a Polícia não consegue descobrir quem matou um filho, a dor da família já é imensa.

Mas quando essa família carrega também a sensação de que poderia ter havido mais investigação, mais empenho, mais perguntas, mais busca pela verdade, nasce uma segunda dor.

A dor da dúvida.

E talvez essa seja uma das formas mais cruéis de prolongar um luto: não saber.
Eu não tenho como voltar a 2015.
Não tenho como refazer aquela investigação.
Não tenho como recuperar as horas, os depoimentos, as informações que talvez tenham se perdido pelo caminho.
Mas ainda tenho o direito de perguntar.

E enquanto eu estiver viva, vou continuar perguntando:
Quem matou meu filho?

E outra pergunta, talvez ainda mais incômoda:
Será que fizeram tudo o que poderiam ter feito para descobrir?

Porque algumas mães enterram seus filhos.
Outras, além de enterrá-los, precisam continuar procurando a verdade.
Eu sou uma dessas mães.