terça-feira, 11 de agosto de 2026

A política "do faça o que eu digo"...


Eu gosto da democracia.

Gosto da ideia de que um país possa ter esquerda, direita, centro, extremos, moderados, conservadores, progressistas e até aqueles que mudam de opinião no meio do caminho.

O que eu não gosto é de viver em um país onde parece que, para alguns, democracia só é bonita quando o outro concorda.

E talvez seja aí que esteja uma das nossas maiores doenças políticas: a incoerência.

Houve um tempo em que o Brasil tinha apenas dois partidos oficiais: ARENA e MDB. Depois veio a abertura, o pluripartidarismo, e os partidos começaram a se multiplicar. Multiplicaram-se tanto que, às vezes, tenho a impressão de que fizeram como coelho: ninguém sabe mais exatamente de onde veio cada um, mas continuam aparecendo.

O problema não é existirem muitos partidos.

O problema é quando existem muitos partidos e poucas convicções.

Porque política deveria ser, antes de qualquer coisa, uma questão de princípios. Mas, em algum momento, princípios começaram a ser negociados em reuniões fechadas, em troca de cargos, verbas, alianças e conveniências.

E isso não é exclusividade de esquerda ou de direita.

Mas existe uma coisa que me incomoda profundamente quando vem de quem passou anos fazendo da defesa da liberdade uma bandeira.

É difícil ouvir alguém falar em nome dos pobres enquanto vive cercado de privilégios.

É difícil ouvir alguém defender as minorias enquanto trata como inimigo qualquer pessoa que pense diferente.

É difícil ouvir discursos inflamados sobre democracia quando a liberdade de expressão parece ser considerada maravilhosa — desde que a expressão seja a que agrada.

Aí eu me lembro daquela velha frase, tão simples e tão atual:

“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.”

E talvez seja exatamente isso que esteja afastando tanta gente da política.

Não é necessariamente a esquerda.

Não é necessariamente a direita.

É a sensação de que existe uma classe política que descobriu como falar bonito para o povo enquanto continua vivendo muito confortavelmente às custas dele.

E tem mais.

Eu não quero um político que pense como eu.

Quero um político que tenha coragem de pensar diferente e, ainda assim, respeite o meu direito de discordar.

Quero poder criticar um governo sem ser chamada de inimiga.

Quero poder elogiar uma medida de esquerda sem ser considerada de esquerda.

Quero poder elogiar uma medida de direita sem ser considerada de direita.

Quero continuar sendo apenas uma cidadã que pensa.

Porque foi para isso que lutamos tanto pela democracia: para que ninguém tivesse o monopólio da verdade.

A liberdade de expressão não pode ser uma concessão do poder.

E democracia não pode ser um prêmio concedido somente a quem se comporta de acordo com a cartilha de quem está mandando.

Se eu posso falar apenas aquilo que não incomoda, então eu não sou livre.

Se você pode falar apenas aquilo que o seu grupo aprova, você também não é.

E talvez esteja na hora de lembrarmos de uma coisa muito simples:

Democracia não é o direito de ouvir apenas aquilo que queremos.

É o direito de ouvir o que não queremos, responder, discordar, argumentar e continuar vivendo juntos.

Eu não tenho medo de uma esquerda forte.

Não tenho medo de uma direita forte.

Tenho medo de qualquer poder forte demais e de uma sociedade fraca demais para questioná-lo.

Porque quando o cidadão deixa de poder perguntar “por quê?”, o poder começa a acreditar que não precisa mais responder.

E aí, meus amigos, a coisa fica perigosa.

Muito perigosa.

Não importa a cor da bandeira.
Quando o poder se sente dono da verdade, a liberdade começa a perder a sua.

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