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domingo, 19 de julho de 2026

QUANDO O CHEIRO NOS DEVOLVE A VIDA...


Dizem que temos cinco sentidos para perceber o mundo. Eu acredito que cada um deles guarda uma maneira diferente de registrar a vida. Os olhos fotografam, os ouvidos gravam vozes, as mãos reconhecem texturas, o paladar eterniza sabores... Mas o olfato... ah, o olfato tem um poder que nenhum outro possui: ele nos faz viajar no tempo.

Ontem, aqui no Recreio, o cheiro de queimado invadiu o ar. O cheiro de fuligem, de fogueira, de folhas secas queimando. Para muitos, talvez fosse apenas um incômodo. Para mim, foi uma passagem de volta.

De repente, eu já não estava mais no presente. Estava novamente em Mazomba, no sítio que meus pais compraram com tanto orgulho. Ainda consigo imaginar meu pai feliz por finalmente ter um pedaço de terra para chamar de seu. Minha mãe cuidando das plantas, das frutas, dos pés de aipim, preparando tudo para que os fins de semana fossem dias de descanso e de alegria.

Aquele cheiro que ontem pairava no ar era o mesmo das folhas queimadas, do lixo do sítio sendo queimado, das tardes simples que hoje moram apenas na memória. Curioso como um aroma consegue guardar tantas histórias.

Foi naquele lugar que também escrevemos um dos capítulos mais felizes da minha vida. Meu casamento aconteceu no sítio. Não houve luxo. Houve alegria. Vesti uma roupa de noiva caipira, meu marido também entrou no clima, e fizemos uma festa do nosso jeito, cercados de pessoas queridas, de risadas sinceras e de muito amor.

Depois vieram os meus filhos, que também puderam viver um pouco daquela liberdade de correr pela terra, subir em árvores, brincar ao ar livre, construir lembranças que nenhum brinquedo moderno seria capaz de oferecer.

Infelizmente, o tempo mudou. A violência chegou, tornando inviável continuar naquele lugar. Depois que meu pai partiu, minha mãe ainda escolheu morar ali. Era a forma dela permanecer perto das lembranças que construíram juntos...

... Mas, quando ela também se foi, o sítio perdeu sua alma. Porque alguns lugares não são feitos apenas de terra. São feitos das pessoas que lhes deram vida.

Ontem compreendi que algumas lembranças não precisam de fotografias. Basta um cheiro. E, por alguns instantes, meu pai voltou a sorrir, minha mãe voltou a caminhar entre as plantações, e eu voltei a ser aquela menina que acreditava que a felicidade podia morar em um pedaço de terra, no calor de uma fogueira e no perfume inesquecível da vida.

terça-feira, 16 de junho de 2026

A renda que a música borda na nossa história...

Believer Imagine Draghttps://youtu.be/7wtfhZwyrcc?is=u7VBHm8dzpznfThzons

Sou uma pessoa profundamente musical.

Curiosamente, quando escrevo, a música quase nunca vem antes. 

Primeiro vêm as palavras. Vêm as lembranças, as reflexões, as dores, os aprendizados. O texto nasce cru, como um tecido recém-tecido.

Só depois a música chega.

Ela vem como uma renda. Um acabamento delicado que não muda a essência da peça, mas revela o seu desenho.

Foi exatamente isso que aconteceu quando me dei conta do significado de Believer, da banda Imagine Dragons.
A música fala sobre dor. Mas não sobre uma dor que destrói. Fala sobre uma dor que transforma.

Ao ouvi-la com atenção, percebi que ela conversava com partes da minha própria história.

Não porque eu agradeça pelas perdas que vivi. Não porque eu ache que o sofrimento seja necessário. Nenhuma mãe escolheria os caminhos que a vida às vezes nos obriga a percorrer.

Mas porque, olhando para trás, reconheço que cada cicatriz deixou uma marca. E que, de alguma forma, elas também me moldaram.

A mulher que sou hoje não existiria sem a menina que sonhou, sem a esposa que se decepcionou, sem a mãe que amou, sem a mãe que perdeu, sem a avó que reaprendeu a sorrir através dos olhos dos netos.

A vida me atingiu muitas vezes.

E, ainda assim, não levou de mim a capacidade de amar.

Talvez seja por isso que Believer tenha encontrado um lugar tão especial dentro de mim. Porque ela traduz algo que eu nunca consegui explicar completamente:
não somos feitos apenas das alegrias que vivemos.
Também somos feitos das dores que sobrevivemos.

E, quando a música encontra a nossa história, acontece uma espécie de milagre silencioso.
Ela nos devolve em melodia aquilo que a alma tentou dizer durante anos.

"A música dá linguagem para emoções que às vezes são difíceis de explicar apenas com palavras."


❤️🩵

domingo, 7 de junho de 2026

“Pequenos Instantes, Eternas Memórias”


Tem dias que estamos meio lusco fusco... meio partida... Talvez cansada... Talvez desanimada... mas aí a gente lembra do que nos faz sorrir... a FAMÍLIA!

Família não é fotografia perfeita.
É riso atravessado no meio do caos.
É criança interrompendo conversa.
É alguém fazendo sinal de paz enquanto o outro tenta organizar a bagunça da vida.
É o colo improvisado.
É o abraço apertado antes mesmo da foto acontecer.

O tempo passa depressa demais.
Os bebês crescem.
As crianças mudam a voz.
Os adultos carregam marcas que antes não existiam.

Mas existem imagens que conseguem guardar aquilo que o coração não quer perder: o amor simples.

A felicidade quase nunca chega anunciada.
Ela aparece assim…
num churrasco qualquer,
num domingo comum,
num sorriso sem pose,
num braço em volta do outro como quem diz silenciosamente:
“eu estou aqui.”

Talvez a vida seja exatamente isso:
colecionar pequenos instantes que, no futuro, terão tamanho de eternidade.

E quando tudo passar…
serão essas memórias que continuarão abraçando a gente por dentro.