Dizem que temos cinco sentidos para perceber o mundo. Eu acredito que cada um deles guarda uma maneira diferente de registrar a vida. Os olhos fotografam, os ouvidos gravam vozes, as mãos reconhecem texturas, o paladar eterniza sabores... Mas o olfato... ah, o olfato tem um poder que nenhum outro possui: ele nos faz viajar no tempo.
Ontem, aqui no Recreio, o cheiro de queimado invadiu o ar. O cheiro de fuligem, de fogueira, de folhas secas queimando. Para muitos, talvez fosse apenas um incômodo. Para mim, foi uma passagem de volta.
De repente, eu já não estava mais no presente. Estava novamente em Mazomba, no sítio que meus pais compraram com tanto orgulho. Ainda consigo imaginar meu pai feliz por finalmente ter um pedaço de terra para chamar de seu. Minha mãe cuidando das plantas, das frutas, dos pés de aipim, preparando tudo para que os fins de semana fossem dias de descanso e de alegria.
Aquele cheiro que ontem pairava no ar era o mesmo das folhas queimadas, do lixo do sítio sendo queimado, das tardes simples que hoje moram apenas na memória. Curioso como um aroma consegue guardar tantas histórias.
Foi naquele lugar que também escrevemos um dos capítulos mais felizes da minha vida. Meu casamento aconteceu no sítio. Não houve luxo. Houve alegria. Vesti uma roupa de noiva caipira, meu marido também entrou no clima, e fizemos uma festa do nosso jeito, cercados de pessoas queridas, de risadas sinceras e de muito amor.
Depois vieram os meus filhos, que também puderam viver um pouco daquela liberdade de correr pela terra, subir em árvores, brincar ao ar livre, construir lembranças que nenhum brinquedo moderno seria capaz de oferecer.
Infelizmente, o tempo mudou. A violência chegou, tornando inviável continuar naquele lugar. Depois que meu pai partiu, minha mãe ainda escolheu morar ali. Era a forma dela permanecer perto das lembranças que construíram juntos...
... Mas, quando ela também se foi, o sítio perdeu sua alma. Porque alguns lugares não são feitos apenas de terra. São feitos das pessoas que lhes deram vida.
Ontem compreendi que algumas lembranças não precisam de fotografias. Basta um cheiro. E, por alguns instantes, meu pai voltou a sorrir, minha mãe voltou a caminhar entre as plantações, e eu voltei a ser aquela menina que acreditava que a felicidade podia morar em um pedaço de terra, no calor de uma fogueira e no perfume inesquecível da vida.
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