quinta-feira, 16 de julho de 2026

MEDO E ABANDONO NO RIO

Mais uma noite no Rio de Janeiro.
Uma noite que começou como tantas outras. A família reunida, as crianças em casa, a rotina seguindo seu curso. Mas bastaram alguns minutos para que o som seco dos disparos rompesse a normalidade. Não eram fogos de artifício. Eram tiros. Tiros que já se tornaram tão frequentes que algumas pessoas insistem em confundi-los com outra coisa, talvez numa tentativa desesperada de acreditar que a realidade não seja tão cruel.

Aqui, perto do apartamento do meu filho, o medo chegou antes mesmo da noite amadurecer.

E junto com ele veio um sentimento difícil de explicar. Um sentimento de abandono. A sensação de que estamos perdendo uma batalha que nem deveria existir. Vi meu filho fazer aquilo que qualquer pai faria: proteger sua família pedindo que ficassemos dentro do quarto. Vi meus netos vulneráveis diante de uma realidade que nenhuma criança deveria conhecer. E eu senti medo. Um medo profundo, daqueles que deixam a alma entorpecida.

Hoje, ainda tento organizar os pensamentos.
Como chegamos até aqui?
Em que momento nos acostumamos a viver entre barricadas, operações, confrontos e notícias de inocentes atingidos? Em que momento o direito de ir e vir passou a depender da sorte, do horário ou da rua escolhida?

O que está faltando para que haja uma reação verdadeira? O que falta para que o Rio de Janeiro recupere as rédeas da própria história? As rédeas do bem viver, da tranquilidade, da esperança?

Até quando a hipocrisia permitirá que discursos substituam ações?
Até quando a covardia impedirá que se enfrentem os problemas pelo nome que eles têm?
Até quando a conveniência política continuará servindo de desculpa para a inércia?

Porque o cidadão comum sabe o que está vendo. Sabe o que está ouvindo. Sabe o que está vivendo.

Quando homens circulam portando armamentos de guerra, quando territórios são dominados pelo medo, quando estratégias militares são usadas para sufocar adversários e controlar comunidades inteiras, não estamos falando apenas de criminalidade comum. Estamos falando de um nível de violência que transforma bairros em campos de tensão permanente e moradores em reféns de uma guerra que nunca escolheram travar.

Enquanto isso, famílias se escondem atrás de paredes, mães rezam pelos filhos, avós abraçam seus netos e tentam fingir serenidade para não aumentar o medo das crianças.

Mas a verdade é que estamos cansados.
Cansados de enterrar sonhos.
Cansados de adaptar a vida ao medo.
Cansados de ouvir promessas.
O Rio de Janeiro merece mais do que sobreviver. Seu povo merece viver.

E talvez a pergunta mais urgente não seja apenas como chegamos até aqui.
Talvez seja: quanto mais estamos dispostos a perder antes de decidir que já perdemos demais?

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