Este blog é mais uma ferramenta para ajudar mães enlutadas a viverem seus dias de saudade entre o céu e a terra.
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
O PESO QUE NÃO CONSEGUIMOS CARREGAR...
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Graças a Deus eu tenho...
Quando a dor nos faz olhar para o outro...
Não é fácil.
Não é fácil conviver com a dor todos os dias... e, quando chega uma friagem dessas que tem castigado o Rio de Janeiro e tantas regiões do Sudeste e do Sul, parece que o corpo inteiro sente.
Para quem convive com artrite reumatoide e fibromialgia, o frio pode significar mais do que simplesmente precisar colocar um agasalho.
É dor.
É desconforto.
É mal-estar.
É aquele corpo que parece reclamar de cada movimento... como se a friagem encontrasse exatamente os lugares onde já existe sofrimento e resolvesse apertá-los um pouco mais.
E, ao mesmo tempo, há coisas que parecem contraditórias...
Um tempo extremamente úmido e, ainda assim, aquela sensação de ressecamento nos olhos, nas mucosas... um incômodo que vai se somando a tantos outros.
Meu Deus... é cruel.
Mas hoje, no meio dessa minha própria dor, uma coisa não sai da minha cabeça:
graças a Deus, eu tenho.
Tenho um agasalho.
Tenho cobertas.
Tenho uma casa.
Tenho um teto.
Tenho abrigo.
Tenho condições de buscar algum alívio, ainda que não possa utilizar tudo aquilo que seria o tratamento mais adequado para mim.
Tenho outras condições de saúde que limitam algumas possibilidades, mas ainda posso contar com medidas paliativas para atravessar esses períodos.
E então eu penso em quem não tem.
Quem sente frio sem ter um agasalho.
Quem sente dor sem ter um teto.
Quem dorme sem saber se estará protegido da chuva, do vento, da friagem...
Quem precisa de um medicamento e simplesmente não pode comprá-lo.
E talvez uma das coisas mais cruéis da dor seja justamente esta:
quem não sente na própria pele aquilo que o outro sente pode acabar julgando aquilo que não compreende.
“É só uma dor.”
“É só frio.”
“É só cansaço.”
Não...
Às vezes, para quem carrega uma doença crônica, o que parece pequeno para os olhos de quem observa pode ser gigantesco para quem está vivendo.
E isso me faz pensar ainda mais em quem não tem sequer o mínimo para amenizar aquilo que sente.
Eu tenho uma consciência espiritual que me ensina que nem tudo aquilo que vivemos precisa ser compreendido imediatamente. Há experiências que atravessamos, aprendizados que fazemos, reformas íntimas que precisamos buscar...
Mas existe uma coisa que eu ainda não consigo fazer:
ficar indiferente diante do sofrimento do outro.
Talvez porque a minha própria dor tenha me ensinado que sentir dor muda a maneira como enxergamos o mundo.
E, quando a dor nos torna mais sensíveis à dor alheia, talvez ela também possa se transformar em alguma coisa maior do que sofrimento.
Pode se transformar em compaixão.
Em gratidão.
Em oração.
Em vontade de fazer alguma coisa.
Hoje, portanto, antes de reclamar somente do frio que dói em mim, eu quero agradecer pelo teto que me protege.
Pelas cobertas que me aquecem.
Pelo agasalho que posso vestir.
Pelo alimento que tenho.
Pelo recurso que, dentro das minhas possibilidades, ainda consigo buscar.
E quero pedir por aqueles que não têm.
Porque, meu Deus...
tem piedade de nós.
Olha pelos que sentem frio.
Pelos que sentem fome.
Pelos que sentem dor.
Pelos que não conseguem comprar o medicamento de que precisam.
Pelos que não têm onde descansar o corpo quando a noite chega.
E, principalmente, não permita que a nossa própria dor nos torne indiferentes à dor do outro.
Dá-nos misericórdia.
Dá-nos força.
Dá-nos sensibilidade para enxergar.
E coragem para ajudar quando pudermos.
Porque há dias em que continuar é difícil...
Muito difícil.
Mas talvez seja justamente nesses dias que precisamos nos lembrar:
um dia de cada vez... cada dia um pouquinho... até o reencontro.
E que, enquanto estivermos aqui, que a nossa dor não seja apenas algo que carregamos...
Que ela também possa nos ensinar a carregar um pouquinho da dor do outro.
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
A preguiça que ninguém consegue enxergar
Tem períodos do ano em que ficar de pé, fazer as coisas da casa, cumprir aquilo que a vida espera da gente… fica difícil.
Muito difícil.
É um desânimo que parece sobrenatural. Uma falta de energia que não se explica. O corpo pesa, os braços doem, as pernas doem, a cabeça não acompanha. E, junto com tudo isso, vem uma tristeza que, muitas vezes, nem sabemos de onde vem.
Mas, aos olhos dos outros, tudo isso pode ter um nome muito simples e muito cruel:
preguiça.
Já falei sobre isso uma vez, mas algumas coisas precisam ser repetidas, porque continuam acontecendo.
As pessoas não estão preparadas para conviver com quem tem uma doença crônica, uma doença autoimune, principalmente quando ela é invisível.
É muito difícil se colocar no lugar do outro quando você não consegue enxergar aquilo que ele sente.
Você não vê a dor.
Não vê o cansaço.
Não vê a inflamação.
Não vê o esforço necessário para realizar aquilo que, para você, parece tão simples.
Você só vê a pessoa parada.
Deitada.
Sem disposição.
E, se não existe empatia, a sentença vem rapidamente:
“Ela é preguiçosa.”
Pois é…
Já faz alguns dias que estou vivendo o meu período “preguiçosa”.
Tenho vontade de ficar na cama o dia inteiro.
Não porque não tenha coisas para fazer. Tenho.
E faço.
Faço a comida. Lavo a louça. Varro o chão. Resolvo o que precisa ser resolvido.
Mas faço tudo pagando um preço que ninguém vê.
Às vezes, depois de uma tarefa simples, meus braços doem. As pernas doem. O corpo inteiro parece pedir para parar.
E eu paro.
Não porque desisti.
Porque, naquele momento, é o que meu corpo está me pedindo.
Hoje, por exemplo, até a claridade do dia me incomoda.
É uma claridade estranha, espelhada, quase agressiva. Minha experiência já me diz que provavelmente vem chuva mais tarde. Mas, enquanto ela não chega, aquela luz me irrita, me agride.
Pode parecer exagero para quem olha de fora.
Para quem não sente, talvez seja mesmo difícil compreender.
Mas esse é o problema das doenças invisíveis: elas exigem do outro uma coisa que nem todo mundo sabe oferecer.
Compreensão sem prova.
Você precisa acreditar naquilo que não consegue enxergar.
E talvez seja justamente aí que a empatia comece.
Eu queria que as pessoas entendessem que nem todo silêncio é desinteresse. Que nem toda cama é acomodação. Que nem toda falta de energia é preguiça.
Às vezes, existe uma batalha acontecendo dentro de um corpo que, por fora, parece perfeitamente normal.
E talvez uma das coisas mais difíceis seja justamente essa: ter dor e ainda precisar explicar que está com dor.
Ter cansaço e precisar provar que não é preguiça.
Ter limitações e ainda sentir culpa por não conseguir fazer tudo.
E, no meu caso, existe ainda outra dificuldade: nem sempre é possível tratar uma doença como gostaríamos, porque existe outro problema de saúde que torna determinada medicação incompatível.
E aí a gente aprende uma lição difícil:
Há doenças que não permitem simplesmente dizer:
“tome um remédio e fique bem.”
Às vezes, a gente precisa conviver.
Adaptar.
Esperar.
Respeitar o próprio corpo.
E aprender, principalmente, a não se culpar.
Então, se hoje eu estiver mais quieta, mais cansada, se eu quiser ficar na cama, se eu não conseguir dar conta de tudo…
Talvez eu não esteja com preguiça.
Talvez eu esteja apenas fazendo o possível para atravessar mais um daqueles períodos em que o meu corpo me lembra que ele também tem limites.
E tudo o que eu gostaria, nesses dias, não é de pena.
É de compreensão.
Porque doença invisível também dói.
E, às vezes, o maior cansaço não vem da doença.
Vem de precisar convencer os outros de que ela existe.