Em que momento nós nos perdemos?
Há imagens que a gente assiste e gostaria de poder esquecer.
Mas algumas imagens não deveriam ser esquecidas.
Um pai caminhando tranquilamente com a filha pequena, aparentemente a caminho da escola. Uma criança ao seu lado, seguindo a rotina de qualquer manhã. Até que um carro se aproxima e, segundo o que mostram as imagens, homens atiram contra ele sem demonstrar qualquer preocupação com a presença daquela criança.
O motivo que levou à execução não é o que quero discutir aqui.
Porque existe algo ainda mais assustador do que tentar compreender por que alguém decidiu matar outro ser humano: é perceber que, naquele momento, aparentemente não houve sequer a preocupação de poupar uma criança do horror.
E isso me faz pensar que alguma coisa muito profunda se rompeu.
Durante muito tempo, mesmo no universo brutal da criminalidade, existiam limites que pareciam ser reconhecidos. Crianças, idosos, famílias... havia, ou pelo menos se imaginava haver, determinados códigos que não deveriam ser ultrapassados.
Hoje, até isso parece estar desaparecendo.
A vida humana está sendo banalizada.
A morte virou uma cena cotidiana. Um corpo no chão, tiros disparados em plena rua, pessoas correndo, alguém filmando, alguém comentando nas redes sociais... e, pouco depois, seguimos para o próximo assunto.
Como se a vida tivesse perdido o seu valor.
Como se matar fosse apenas mais um acontecimento.
E o que mais me assusta é que não estamos falando apenas de criminosos cada vez mais violentos. Estamos falando de uma sociedade que está sendo obrigada a conviver diariamente com o medo, com a insegurança e com a sensação de que ninguém está realmente protegido.
Hoje é um pai levando a filha para a escola.
Amanhã pode ser alguém indo trabalhar.
Uma mãe voltando para casa.
Um idoso atravessando a rua.
Uma criança brincando na calçada.
Quem será o próximo?
E não estou falando de uma cidade específica. O problema ultrapassou fronteiras. É um sentimento que alcança diferentes lugares deste país.
E nós vamos ficando cansados.
Cansados de assistir.
Cansados de sentir medo.
Cansados de ouvir histórias de pessoas assassinadas, assaltadas, sequestradas, vítimas de uma violência que parece não encontrar mais freios.
Cansados de precisar calcular caminhos, horários, lugares e riscos.
Cansados de tentar proteger quem amamos.
E talvez o mais perverso de tudo seja isso: a violência não mata apenas pessoas. Ela vai matando, aos poucos, a nossa sensação de liberdade.
A gente começa a ter medo de sair.
Medo de voltar.
Medo de estar no lugar errado, na hora errada.
Medo por nossos filhos, nossos netos, nossos pais.
E como continuar vivendo assim sem adoecer por dentro?
Como não sentir angústia diante de um mundo em que uma criança pode presenciar o assassinato do próprio pai simplesmente porque estava caminhando ao lado dele?
Eu me pergunto, sinceramente:
Em que momento nós nos perdemos enquanto humanidade?
Em que momento a vida passou a valer tão pouco?
Em que momento a crueldade deixou de chocar?
Em que momento uma criança deixou de ser um limite?
E, principalmente, até onde nós vamos?
Eu não tenho uma resposta.
Mas ainda quero acreditar que existe salvação.
Porque, se eu deixar de acreditar nisso, então a violência terá conseguido levar mais do que vidas. Terá levado também a nossa esperança.
Talvez a salvação comece justamente quando a gente se recusa a considerar o absurdo normal.
Quando uma morte ainda nos revolta.
Quando uma criança ainda nos faz parar e pensar.
Quando nos recusamos a dizer simplesmente: “É assim mesmo.”
Não. Não deveria ser assim.
Uma sociedade que perde a capacidade de se indignar diante da morte já começou a morrer também.
Por isso, diante dessas imagens, eu não quero apenas sentir medo.
Quero fazer a pergunta que talvez todos nós precisemos fazer:
Que país estamos deixando para nossas crianças?
E, se ainda houver salvação — e eu quero acreditar que há —, talvez ela comece quando decidirmos que a vida humana precisa voltar a ter valor.
Toda vida.
Sem exceção.
Porque quando uma criança deixa de ser um limite para a violência, não é apenas aquela família que está em perigo.
Somos todos nós.