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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

As três versões da Márcia...


Tenho pensado que talvez existam três versões de uma pessoa.

A primeira é aquela que os outros enxergam.

A segunda é aquela que somos quando ninguém está olhando.

E a terceira é aquela que gostaríamos de nos tornar.

E talvez amadurecer seja justamente ter coragem de colocar as três diante do espelho e perguntar: onde elas se encontram?

Como as pessoas me veem?

Algumas me veem como uma mulher boazinha, religiosa, sensível. Depois da morte do Bruno, talvez algumas tenham passado a me enxergar principalmente através da piedade. A mulher que perdeu um filho. A mãe que luta. A mulher que sofreu.

Alguns me veem como forte. Corajosa. Uma espécie de Fênix, dessas que parecem ter aprendido a renascer das próprias cinzas.

Outros, certamente, me acham mandona. Autoritária. Intensa demais. Apaixonada demais pelas coisas que defendo.

E provavelmente todos estão, de alguma maneira, certos.

Porque sou tudo isso.

Tenho uma religiosidade que faz parte de mim, mas não quero que a minha fé seja confundida com fragilidade. Sou sensível, mas sensibilidade nunca foi sinônimo de fraqueza.

Também sou forte. Mas não sou forte o tempo inteiro.

Sou uma mulher que chora, que sente medo, que se decepciona, que se cansa. E também sou aquela que, depois de tudo, levanta.

Sou apaixonada.

E talvez essa seja uma das características que mais definem quem eu sou.

Eu me apaixono por pessoas, por músicas, por livros, por ideias, por causas. Apaixono-me por aquilo que considero justo. E, quando alguma coisa toca profundamente aquilo em que acredito, eu não sei defendê-la pela metade.

Defendo com veemência.

E aí talvez esteja uma das minhas maiores qualidades e também um dos meus maiores defeitos.

Porque a mesma veemência que me faz lutar por aquilo em que acredito pode fazer com que algumas pessoas me enxerguem como autoritária.

Talvez eu seja.

Ou talvez, algumas vezes, eu precise aprender que ter convicção não significa necessariamente precisar convencer.

Essa é uma das coisas que ainda estou aprendendo.

Eu sou uma pessoa extremamente caseira.

Não gosto de aglomerações. Não gosto de shopping, de balada, de conversa vazia, de gente falando no meu ouvido o tempo inteiro. Não preciso estar cercada de pessoas para me sentir viva.

Eu gosto da minha casa.

Gosto do silêncio.

Gosto de um livro, de uma boa peça de teatro, de música — e música eu amo de uma maneira quase inexplicável.

Gosto da minha própria companhia.

E existe uma diferença enorme entre ser uma pessoa solitária e ser uma pessoa que escolheu a solitude.

Eu não sou sozinha porque ninguém me quer por perto.

Eu sou, muitas vezes, sozinha porque gosto.

Gosto da liberdade de não precisar falar o tempo inteiro.

Gosto de poder pensar.

Gosto de poder ficar quieta.

Gosto de não precisar representar alegria quando não estou alegre, nem disposição quando quero simplesmente ficar no meu canto.

Eu gosto de liberdade.

Talvez seja uma das coisas que mais amo na vida.

E não estou falando apenas da liberdade de ir e vir.

Falo da liberdade de decidir.

Da liberdade de pensar.

Da liberdade de escolher.

Da liberdade de ser.

Não gosto que tentem me empurrar para dentro da vida que outra pessoa considera ideal.

E talvez por isso eu também procure não fazer com os outros aquilo que não gostaria que fizessem comigo.

Eu quero que cada pessoa tenha o direito de ser quem é.

Como eu quero ter o direito de ser quem sou.

Sou fiel.

À minha família.

Aos meus amigos.

Àqueles que amo.

À minha fé.

E, principalmente, às minhas convicções.

Mas existe uma coisa que talvez eu precise observar nessa fidelidade: às vezes, ser fiel às minhas convicções pode me fazer permanecer tempo demais em algumas batalhas.

Talvez nem toda batalha precise ser vencida.

Algumas precisam apenas ser abandonadas.

Eu sou extremamente dedicada à minha família.

Para mim, família é uma das coisas mais importantes deste mundo.

E quando amo, eu me dedico.

Talvez até demais.

Talvez esse “demais” também seja parte do problema.

Porque pessoas muito dedicadas podem esperar dos outros a mesma intensidade que oferecem.

E nem todo mundo ama na mesma medida.

Nem todo mundo demonstra.

Nem todo mundo compreende.

Nem todo mundo tem a mesma capacidade de entrega.

Isso não significa necessariamente que não amem.

Significa apenas que são diferentes.

E eu ainda estou aprendendo a não transformar diferença em decepção.

Também sou extremamente justa.

Pelo menos é assim que me reconheço.

Procuro ouvir o outro lado. Procuro me colocar no lugar de quem está diante de mim. Tento compreender antes de julgar.

E existe uma ironia nisso.

Às vezes, justamente porque procuro compreender demais, algumas pessoas podem achar que estou sendo falsa.

Como se quem conseguisse enxergar vários lados de uma questão não tivesse opinião própria.

Tenho.

Tenho muitas.

Mas compreender o outro não significa concordar com ele.

Essa talvez seja uma das maiores confusões que as pessoas fazem a meu respeito.

Eu posso entender você e continuar discordando de você.

Posso reconhecer sua dor e ainda assim não aceitar sua atitude.

Posso enxergar seus motivos sem justificar suas escolhas.

Isso não é falsidade.

Isso é tentativa de justiça.

E, talvez, as pessoas que não conseguem compreender isso acabem perdendo uma das melhores coisas que existem em mim: a minha devoção.

Porque eu sou devota.

Não apenas no sentido religioso.

Sou devota das pessoas que amo, das causas em que acredito, das relações que considero verdadeiras.

Quando alguém entra verdadeiramente no meu coração, eu não ofereço uma presença superficial.

Eu ofereço dedicação.

Mas existe um preço em ser assim.

Pessoas intensas podem ser difíceis.

Pessoas que sentem profundamente podem cobrar profundidade.

Pessoas que defendem muito aquilo em que acreditam podem parecer inflexíveis.

Pessoas que amam muito podem, algumas vezes, sufocar sem perceber.

E é aí que entra a terceira Márcia.

A Márcia que eu gostaria de ser.

Não quero ser menos intensa.

Não quero ser menos apaixonada.

Não quero perder minha fé, minha coragem, minha capacidade de lutar, minha lealdade ou meu amor pela família.

Mas gostaria de ser mais leve.

Gostaria de aprender a escolher melhor minhas batalhas.

Gostaria de saber quando falar e quando o silêncio é mais sábio.

Gostaria de continuar defendendo minhas convicções sem transformar toda discordância em enfrentamento.

Gostaria de compreender que algumas pessoas simplesmente não terão a mesma entrega que eu — e que isso não precisa diminuir o valor delas nem o meu.

Gostaria de ser uma mulher cada vez mais livre, mas também cada vez mais tranquila.

Porque talvez liberdade não seja apenas poder fazer o que quero.

Talvez liberdade também seja não precisar provar o tempo inteiro que tenho razão.

E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas do amadurecimento.

Descobrir que não preciso abandonar quem sou para melhorar quem sou.

Posso continuar sendo Márcia.

A mulher da fé.

A mãe.

A amiga.

A apaixonada.

A intensa.

A justa.

A que gosta de silêncio.

A que ama música.

A que prefere um livro a uma multidão.

A que luta.

A que se revolta.

A que se recolhe.

A que cai.

A que chora.

A que renasce.

A Fênix.

Mas posso ser uma Fênix diferente.

Uma que não precise esperar o incêndio para descobrir que consegue voar.

E talvez, no fim das contas, o bom e o ruim de ser Márcia estejam exatamente no mesmo lugar.

Eu sinto muito.

Amo muito.

Defendo muito.

Vivo muito.

E, às vezes, tudo isso é minha força.

Às vezes, tudo isso é meu excesso.

Mas é meu.

E se existe uma coisa que eu não quero perder no processo de me tornar uma mulher melhor, é justamente aquilo que me torna reconhecível para mim mesma.

Eu não quero deixar de ser Márcia.

Quero apenas aprender a ser uma versão de Márcia que me dê mais paz.

E você? Quem é você? Há paz no seu "eu sou"?