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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Insônia... desgaste constante...


Acordada desde 1:17 da manhã... agora 6:01

Não consegui dormir a maior parte da noite... estou acordada faz horas e daqui a pouco preciso ir ao dentista...

Estou cansada... faz dias... há em mim uma preguiça da alma... um esgotar de emoções...

Não  consigo passar pela dor dos outros como quem olha pela janela. Eu entra nela. Sinto. Penso. Me coloco no lugar. E, quando o mundo está cheio de sofrimento, acabo carregando um pouco de cada história dentro de mim.

Ando demais solidária a dor dos outros... não sei fugir disso!

Hoje  só precisava atravessar esta manhã.

Mesmo estando  sem dormir, cansada há dias e ainda precisando ir ao dentista... Então farei o mínimo necessário. Irei devagar. Depois, voltarei para casa, se puder,  me permitirei não produzir nada. Não preciso escrever o bom dia perfeito, não preciso responder todo mundo, não preciso absorver mais nenhuma dor.

Hoje  só preciso atravessar esta manhã.

Às vezes o cansaço coloca na gente uma espécie de neblina sobre aquilo que, em outro dia, conseguimos enxergar com mais clareza.

E eu já atravessei neblinas antes.

Hoje, talvez seja só mais um daqueles dias em que a  frase do Bruno precisa ser aplicada a mim:

um dia de cada vez… cada dia um pouquinho… até o reencontro.

Só que, desta vez, sem cuidar de todo mundo primeiro.

Preciso cuidar de mim...

Ando demais desanimada com o rumo da vida...

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Graças a Deus eu tenho...

Quando a dor nos faz olhar para o outro...

Não é fácil.

Não é fácil conviver com a dor todos os dias... e, quando chega uma friagem dessas que tem castigado o Rio de Janeiro e tantas regiões do Sudeste e do Sul, parece que o corpo inteiro sente.

Para quem convive com artrite reumatoide e fibromialgia, o frio pode significar mais do que simplesmente precisar colocar um agasalho.

É dor.

É desconforto.

É mal-estar.

É aquele corpo que parece reclamar de cada movimento... como se a friagem encontrasse exatamente os lugares onde já existe sofrimento e resolvesse apertá-los um pouco mais.

E, ao mesmo tempo, há coisas que parecem contraditórias...

Um tempo extremamente úmido e, ainda assim, aquela sensação de ressecamento nos olhos, nas mucosas... um incômodo que vai se somando a tantos outros.

Meu Deus... é cruel.

Mas hoje, no meio dessa minha própria dor, uma coisa não sai da minha cabeça:

graças a Deus, eu tenho.

Tenho um agasalho.

Tenho cobertas.

Tenho uma casa.

Tenho um teto.

Tenho abrigo.

Tenho condições de buscar algum alívio, ainda que não possa utilizar tudo aquilo que seria o tratamento mais adequado para mim.

Tenho outras condições de saúde que limitam algumas possibilidades, mas ainda posso contar com medidas paliativas para atravessar esses períodos.

E então eu penso em quem não tem.

Quem sente frio sem ter um agasalho.

Quem sente dor sem ter um teto.

Quem dorme sem saber se estará protegido da chuva, do vento, da friagem...

Quem precisa de um medicamento e simplesmente não pode comprá-lo.

E talvez uma das coisas mais cruéis da dor seja justamente esta:

quem não sente na própria pele aquilo que o outro sente pode acabar julgando aquilo que não compreende.

“É só uma dor.”

“É só frio.”

“É só cansaço.”

Não...

Às vezes, para quem carrega uma doença crônica, o que parece pequeno para os olhos de quem observa pode ser gigantesco para quem está vivendo.

E isso me faz pensar ainda mais em quem não tem sequer o mínimo para amenizar aquilo que sente.

Eu tenho uma consciência espiritual que me ensina que nem tudo aquilo que vivemos precisa ser compreendido imediatamente. Há experiências que atravessamos, aprendizados que fazemos, reformas íntimas que precisamos buscar...

Mas existe uma coisa que eu ainda não consigo fazer:

ficar indiferente diante do sofrimento do outro.

Talvez porque a minha própria dor tenha me ensinado que sentir dor muda a maneira como enxergamos o mundo.

E, quando a dor nos torna mais sensíveis à dor alheia, talvez ela também possa se transformar em alguma coisa maior do que sofrimento.

Pode se transformar em compaixão.

Em gratidão.

Em oração.

Em vontade de fazer alguma coisa.

Hoje, portanto, antes de reclamar somente do frio que dói em mim, eu quero agradecer pelo teto que me protege.

Pelas cobertas que me aquecem.

Pelo agasalho que posso vestir.

Pelo alimento que tenho.

Pelo recurso que, dentro das minhas possibilidades, ainda consigo buscar.

E quero pedir por aqueles que não têm.

Porque, meu Deus...

tem piedade de nós.

Olha pelos que sentem frio.

Pelos que sentem fome.

Pelos que sentem dor.

Pelos que não conseguem comprar o medicamento de que precisam.

Pelos que não têm onde descansar o corpo quando a noite chega.

E, principalmente, não permita que a nossa própria dor nos torne indiferentes à dor do outro.

Dá-nos misericórdia.

Dá-nos força.

Dá-nos sensibilidade para enxergar.

E coragem para ajudar quando pudermos.

Porque há dias em que continuar é difícil...

Muito difícil.

Mas talvez seja justamente nesses dias que precisamos nos lembrar:

um dia de cada vez... cada dia um pouquinho... até o reencontro.

E que, enquanto estivermos aqui, que a nossa dor não seja apenas algo que carregamos...

Que ela também possa nos ensinar a carregar um pouquinho da dor do outro.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

CARTAS QUE CHEGAM ONDE A SAUDADE NÃO CONSEGUE CHEGAR


Hoje eu quero falar de um assunto polêmico, daqueles que estão sendo debatidos nas redes sociais, na televisão e em todos os cantos.

E quero falar não como alguém que simplesmente ouviu falar. Quero falar como mãe enlutada. Como alguém que, há onze anos, conhece de perto o abismo que é perder um filho.

Quero falar sobre os médiuns e, especialmente, sobre as chamadas cartas consoladoras.

Antes de qualquer discussão, antes de qualquer julgamento, antes de qualquer tentativa de desqualificar alguém, talvez fosse importante lembrar de uma coisa: existem pessoas do outro lado dessas cartas. Pessoas que estão sofrendo. Pessoas que perderam filhos, pais, irmãos, companheiros, netos, amigos. Pessoas tentando sobreviver à ausência.

Eu recebi uma carta alguns meses depois da morte do meu filho, Bruno.

Foi escrita por um médium de Sergipe, um rapaz que jamais havia me visto. E aquela carta trazia informações que, para mim, eram absolutamente inimagináveis de serem encontradas nas redes sociais.

Ele mencionava, inclusive, o número da OAB do Bruno, o e-mail e até uma senha que eu sequer conhecia.

E havia detalhes muito mais profundos. Coisas íntimas, nossas, pertencentes à nossa história familiar. Coisas que não estavam publicadas em lugar algum.

Eu não estou aqui para exigir que ninguém acredite naquilo em que eu acredito.

Não estou dizendo que toda carta é verdadeira. Não estou dizendo que todo médium é legítimo. E muito menos que qualquer pessoa que se apresente como médium esteja acima de questionamentos.

Fraude deve ser investigada. Engano deve ser denunciado.

Mas existe uma diferença enorme entre investigar e destruir.

Existe uma diferença entre questionar e transformar a dor alheia em espetáculo.

E é justamente isso que me incomoda profundamente quando vejo determinadas abordagens na televisão e nas redes sociais.

Porque, quando se coloca um médium no centro de uma exposição pública, muitas vezes não existe apenas um profissional sendo questionado.

Existe uma mãe assistindo.

Existe um pai.

Existe uma família inteira.

Existe alguém que talvez tenha encontrado naquela carta o primeiro fio de esperança depois de uma tragédia.

Para quem está de fora, pode parecer apenas uma folha de papel.

Para quem perdeu alguém, pode ser muito mais do que isso.

Pode ser um abraço.

Pode ser uma oportunidade de respirar depois de meses vivendo com a sensação de que o mundo acabou.

Pode ser aquilo que ajuda uma pessoa a continuar caminhando.

Eu sei disso porque vivi isso.

E talvez por isso eu me sinta no direito — e até no dever — de pedir um pouco mais de respeito.

Não estou pedindo que a imprensa deixe de investigar. Estou pedindo que a dor humana não seja esquecida no caminho da audiência.

Tenho profunda solidariedade por Maira.

Tenho solidariedade também por Fernando Ben, que, como tantos outros, passou por momentos extremamente difíceis diante de questionamentos, exposições e julgamentos públicos.

E eu me pergunto:

Será que, em algum momento, nós vamos compreender que nem tudo precisa ser transformado em espetáculo?

Há coisas que pertencem ao território da fé.

Há coisas que pertencem ao território da ciência.

Há coisas que pertencem ao território da investigação.

E há coisas que pertencem ao território íntimo de quem sofre.

Eu não quero convencer ninguém da existência da comunicação entre vivos e mortos.

Eu só peço que não tirem de quem acredita o direito de encontrar, através da fé, uma maneira de continuar vivendo.

Porque quem nunca perdeu um filho talvez não consiga compreender.

Mas quem já esteve naquele lugar sabe:

às vezes, uma palavra de esperança não precisa provar o céu. Ela só precisa ajudar alguém a sobreviver à Terra.

E, para mim, algumas dessas cartas fizeram exatamente isso.

Por isso, antes de destruir um médium, antes de transformar uma carta consoladora em manchete, antes de julgar aquilo que não compreendemos, talvez devêssemos pensar em quem está segurando aquela carta do outro lado.

Talvez ali esteja alguém apenas tentando encontrar forças para viver mais um dia.

E isso, por si só, já deveria merecer respeito.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A preguiça que ninguém consegue enxergar



Tem períodos do ano em que ficar de pé, fazer as coisas da casa, cumprir aquilo que a vida espera da gente… fica difícil.

Muito difícil.

É um desânimo que parece sobrenatural. Uma falta de energia que não se explica. O corpo pesa, os braços doem, as pernas doem, a cabeça não acompanha. E, junto com tudo isso, vem uma tristeza que, muitas vezes, nem sabemos de onde vem.

Mas, aos olhos dos outros, tudo isso pode ter um nome muito simples e muito cruel:

preguiça.

Já falei sobre isso uma vez, mas algumas coisas precisam ser repetidas, porque continuam acontecendo.

As pessoas não estão preparadas para conviver com quem tem uma doença crônica, uma doença autoimune, principalmente quando ela é invisível.

É muito difícil se colocar no lugar do outro quando você não consegue enxergar aquilo que ele sente.

Você não vê a dor.

Não vê o cansaço.

Não vê a inflamação.

Não vê o esforço necessário para realizar aquilo que, para você, parece tão simples.

Você só vê a pessoa parada.

Deitada.

Sem disposição.

E, se não existe empatia, a sentença vem rapidamente:
“Ela é preguiçosa.”

Pois é…

Já faz alguns dias que estou vivendo o meu período “preguiçosa”.

Tenho vontade de ficar na cama o dia inteiro.

Não porque não tenha coisas para fazer. Tenho.

E faço.

Faço a comida. Lavo a louça. Varro o chão. Resolvo o que precisa ser resolvido.

Mas faço tudo pagando um preço que ninguém vê.

Às vezes, depois de uma tarefa simples, meus braços doem. As pernas doem. O corpo inteiro parece pedir para parar.

E eu paro.

Não porque desisti.

Porque, naquele momento, é o que meu corpo está me pedindo.

Hoje, por exemplo, até a claridade do dia me incomoda.

É uma claridade estranha, espelhada, quase agressiva. Minha experiência já me diz que provavelmente vem chuva mais tarde. Mas, enquanto ela não chega, aquela luz me irrita, me agride.

Pode parecer exagero para quem olha de fora.

Para quem não sente, talvez seja mesmo difícil compreender.

Mas esse é o problema das doenças invisíveis: elas exigem do outro uma coisa que nem todo mundo sabe oferecer.

Compreensão sem prova.

Você precisa acreditar naquilo que não consegue enxergar.

E talvez seja justamente aí que a empatia comece.

Eu queria que as pessoas entendessem que nem todo silêncio é desinteresse. Que nem toda cama é acomodação. Que nem toda falta de energia é preguiça.

Às vezes, existe uma batalha acontecendo dentro de um corpo que, por fora, parece perfeitamente normal.

E talvez uma das coisas mais difíceis seja justamente essa: ter dor e ainda precisar explicar que está com dor.

Ter cansaço e precisar provar que não é preguiça.

Ter limitações e ainda sentir culpa por não conseguir fazer tudo.

E, no meu caso, existe ainda outra dificuldade: nem sempre é possível tratar uma doença como gostaríamos, porque existe outro problema de saúde que torna determinada medicação incompatível.

E aí a gente aprende uma lição difícil:

Há doenças que não permitem simplesmente dizer:
“tome um remédio e fique bem.”

Às vezes, a gente precisa conviver.

Adaptar.

Esperar.

Respeitar o próprio corpo.

E aprender, principalmente, a não se culpar.

Então, se hoje eu estiver mais quieta, mais cansada, se eu quiser ficar na cama, se eu não conseguir dar conta de tudo…

Talvez eu não esteja com preguiça.

Talvez eu esteja apenas fazendo o possível para atravessar mais um daqueles períodos em que o meu corpo me lembra que ele também tem limites.

E tudo o que eu gostaria, nesses dias, não é de pena.

É de compreensão.

Porque doença invisível também dói.

E, às vezes, o maior cansaço não vem da doença.

Vem de precisar convencer os outros de que ela existe.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Dor e cansaço...

Só um instantinho

Há dias em que a vida parece ficar sem inspiração.

Não porque tenham acabado as histórias, os sentimentos ou as palavras. Mas porque o corpo cansa. E quando o corpo cansa demais, até a alma parece pedir silêncio.

Ultimamente tenho me sentido assim.

As dores da artrite, da fibromialgia, esse cansaço que parece não ter fim… há momentos em que chega a ser cruel. E, ainda assim, a gente levanta, segue, conversa, sorri, responde às pessoas e tenta manter as aparências.

Porque, de alguma maneira, aprendemos que não podemos reclamar demais.

A dor incomoda.
O cansaço incomoda.
A tristeza incomoda.

E ninguém quer ser aquela pessoa que está sempre dizendo que não está bem.

Então a gente disfarça.

Reclama um pouquinho, só para não parecer que está tudo bem… mas não reclama demais, porque também não quer pesar na vida de ninguém.

Só que existe um preço para esse silêncio.

Esse cansaço tem roubado minhas horas de sono. E, junto com elas, tem levado um pouco da minha inspiração.

Eu, que tantas vezes acordei querendo escrever, querendo colocar palavras no mundo, querendo compartilhar alguma coisa logo pela manhã, tenho encontrado dias em que simplesmente não tenho forças.

E talvez eu precise aceitar isso.

Aceitar que existem fases em que a gente não produz, não cria, não floresce.

Apenas atravessa.

Mas eu também sei que a vida é feita de ciclos. E aquilo que hoje parece interminável, amanhã será apenas uma lembrança de um período difícil.

Eu vou voltar.

Vai voltar a vontade de escrever pela manhã.
Vai voltar a alegria de encontrar uma palavra e transformá-la em sentimento.
Vai voltar aquela mulher que acorda querendo conversar com o mundo através das palavras.

Por enquanto, talvez eu só precise me permitir existir assim: cansada, dolorida, menos inspirada… mas ainda aqui.

E me lembro de uma frase que li em uma carta psicografada, atribuída a um espírito que dizia à sua mãezinha:

“Isso é só um instante. É só um instantinho.”

É nisso que eu quero acreditar hoje.

Porque a dor pode ser grande.
O cansaço pode ser cruel.
Mas nenhum instante é eterno.

E esse também vai passar.

Depois, eu volto a escrever.

E, quem sabe, descubro que até esse silêncio tinha alguma coisa para me ensinar.

domingo, 21 de junho de 2026

Uma mãe, vários filhos...


Uma realidade muitas vezes escondida atrás de um comentário debochado...
Há muito mais mágoa pelo que não se teve do que espanto ou graça diante de uma mãe zelosa, presente e atenta.

Meus filhos sofreram um pouco com isso, é verdade. Afinal, eles eram os "pintinhos da mamãe". E eu sempre fui, antes de qualquer outra coisa, mãe.

Dediquei meu tempo, minha energia e meu coração. Estive ao lado deles nos momentos bons e nos difíceis. Falei o que precisava ser falado, sem deixar de caminhar junto, sem abandonar a mão que eu mesma ensinava a seguir o próprio caminho.

E talvez por isso muitos amigos deles — os de verdade, os da infância, aqueles que a vida foi trazendo para dentro da nossa casa — tenham acabado me considerando mais do que uma simples "tia". Eu me tornei uma espécie de mãe emprestada, um porto seguro, um colo disponível, um ouvido atento.

Hoje entendo que o amor vigilante de uma mãe pode até despertar algumas brincadeiras. Mas a ausência desse amor costuma deixar marcas muito mais profundas do que sua presença.

Porque filhos crescem, ganham o mundo, constroem suas próprias histórias... mas nunca deixam de precisar saber que existe um lugar onde são amados sem medida e sem condições.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Somos todas Marias... um texto às mães enlutadas!

Quando uma mãe perde um filho, todas as outras mães se aproximam. Não porque sintam a mesma dor — a dor da perda de um filho é única, impossível de ser medida ou comparada — mas porque cada mãe sabe, em alguma dimensão da alma, o peso que um filho ocupa dentro de nós.

Costumo dizer que somos todas Marias.

Marias que, em algum momento da vida, caminham até o pé de uma cruz invisível. Marias que aprendem sobre amor e entrega de uma forma que jamais desejaram aprender. Marias que seguem vivendo mesmo depois que uma parte de si parece ter partido.
Foi compreendendo a figura da Virgem Maria que comecei a elaborar meu luto. Não a Maria distante dos altares, mas a mãe. A mulher que viu o filho sofrer. A mulher que não pôde impedir. A mulher que precisou permanecer de pé quando tudo dentro dela desejava cair.
Naquele momento, percebi que não estava sozinha na minha dor. Havia uma mãe, há mais de dois mil anos, que conhecia aquele caminho.

E então encontrei uma outra reflexão, muito presente no espiritismo: a de que os filhos escolhem suas mães. Não somos nós que os escolhemos. Eles nos escolhem porque sabem que seremos o colo possível, o aprendizado necessário, o equipamento emocional e espiritual de que precisarão para a experiência que vieram viver.

Durante muito tempo, confesso que essa ideia me intrigou. Depois, ela me consolou.
Porque, se meu filho me escolheu, talvez tenha visto em mim uma força que eu mesma desconhecia. Talvez tenha sabido que eu conseguiria amá-lo exatamente como ele precisava ser amado. Talvez tenha sabido que, mesmo depois da despedida, eu encontraria um jeito de continuar carregando sua existência dentro de mim.

Hoje acredito que o amor entre mãe e filho não termina na ausência física. Ele muda de forma. Sai dos abraços e passa a habitar as lembranças. Sai da convivência diária e passa a morar na saudade. Sai dos olhos e passa a ocupar a alma.

E talvez seja por isso que nós, mães enlutadas, nos reconhecemos tão rapidamente umas nas outras.
Porque carregamos uma ausência que só outra mãe compreende.

E porque, no fundo, seguimos sendo Marias: feridas, saudosas, mas ainda capazes de amar.

terça-feira, 9 de junho de 2026

“O dia em que o câncer virou xingamento”

Foto copiada do site Dreamstime.

Ontem, ao buscar a minha neta na escola, eu passei por uma quadra em frente a uma outra escola. Nessa quadra tinham vários adolescentes, meninas, meninos. E aí eu escutei um dos adolescentes, com cara de desvirtuado, coitado, gritando assim para o outro, cala a boca, seu gay...seu gay esculhambado. Se você não calar a boca, eu vou desejar que você fique com câncer, que você morra com câncer.

 E aquilo me deu uma dor no peito, sabe? Aquilo me deu uma tristeza, porque aquele menino não sabe o que é a dor de um paciente com câncer. Ele não sabe o medo que uma pessoa sente quando está com câncer. Essa coisa que o doente terminal pensa...do eu não sei como vai ser o dia de amanhã, embora ninguém saiba como será o amanhã.

No entanto, a grande verdade é essa, que o paciente com câncer, sabe que ele está muito mais perto do desfecho do que uma pessoa saudável.

 E foi exatamente isso que me deu tristeza...  as crianças, os jovens,   perderam a alegria de viver, a singeleza do viver. E eu acho que nós pais perdemos a mão no educar.

O que mais dói nisso tudo é perceber que aquele menino não estava apenas xingando o outro. Ele estava banalizando a dor. Transformando sofrimento humano em arma de humilhação.

E talvez seja exatamente aí que esteja uma das maiores falhas do nosso tempo: muitos jovens aprenderam a reagir, atacar, ironizar… mas não aprenderam a sentir. Não aprenderam a reconhecer a fragilidade da vida, a doença, o medo, o limite do outro.
O câncer virou “xingamento”. A morte virou “deboche”. A diferença virou motivo de violência.

E isso revela uma pobreza emocional enorme.
Porque quem já viu um paciente com câncer de perto sabe… sabe do silêncio de quem tem medo do exame, da angústia de esperar um resultado, do cabelo que cai junto com a autoestima, do esforço para sorrir mesmo sentindo dor. Sabe do olhar de quem, pela primeira vez, entende que o amanhã não é garantido.

Tive uma reação profundamente humana: senti dor. Dor pelo menino ofendido. Dor pelo menino agressor. Dor pelo mundo que estamos construindo.

E talvez a razão não me falhe quando digo que nós, adultos, perdemos um pouco a mão no educar. Em algum momento, confundimos liberdade com ausência de limite. Proteção com falta de responsabilidade. E muitos jovens cresceram sem desenvolver empatia, sem compreender consequência, sem aprender que palavra também machuca, destrói, adoece.

Mas ainda acredito que há esperança exatamente em pessoas que, como eu, ainda se incomodam. Ainda sentem tristeza diante da crueldade. Porque o contrário da barbárie não é a perfeição — é a consciência.
E crianças não aprendem humanidade em discursos. Aprendem observando adultos humanos.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A régua: julgo você por mim!

Existe uma mania muito humana — e ao mesmo tempo muito injusta — de medir o outro pela nossa própria régua. Julgamos a dor do outro pela intensidade da nossa dor. Julgamos a força do outro pela nossa capacidade de suportar. Julgamos reações, sentimentos, escolhas e até limites emocionais com base naquilo que nós faríamos.

E talvez esteja aí um dos maiores erros da convivência humana.
Cada pessoa carrega uma história que ninguém vê inteira. Carrega marcas, medos, traumas, experiências, educação, criação, abandono, excesso de cobrança, falta de amor, excesso de responsabilidade… coisas que moldam profundamente sua forma de agir diante da vida.

Mas ainda assim, muita gente insiste em dizer: “Se fosse comigo, eu faria diferente.” “Eu no lugar dela já teria superado.” “Isso é fraqueza.” “É drama.” “É exagero.”
Não… talvez não seja.

Talvez seja apenas alguém vivendo uma batalha que você não suportaria viver nem por um dia.

Infelizmente, a maior parte das pessoas não percebe que julga o outro usando a própria estrutura emocional como referência. Só que aquilo que é fácil para um pode ser insuportável para outro. O que destrói uma pessoa pode não abalar outra. E vice-versa.
Há pessoas que suportam dores físicas absurdas e desmoronam emocionalmente por uma rejeição. Outras atravessam perdas gigantescas, mas não suportam pressão. Algumas conseguem trabalhar sob caos. Outras entram em colapso por excesso de cobrança.

E nenhuma delas está errada por isso.
Nem todo mundo nasceu com os mesmos recursos emocionais. Nem todo mundo teve apoio, acolhimento ou amor suficiente para aprender a enfrentar a vida da mesma maneira.

A empatia começa justamente quando abandonamos a arrogância de achar que nossa régua serve para medir o mundo inteiro.

Porque maturidade não é pensar: “Eu conseguiria.”
Maturidade é compreender: “Talvez eu nunca tenha vivido o que essa pessoa viveu.”
E talvez, se tivéssemos atravessado exatamente as mesmas dores, os mesmos abandonos, os mesmos medos e as mesmas noites em silêncio… agiríamos igual. Ou até pior.

Antes de julgar alguém, vale lembrar: aquilo que em você virou cicatriz, no outro ainda pode ser ferida aberta.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Tem dias que o Brasil pesa...

Foto Depositphotos.

Tem dias em que o Brasil pesa.

Pesa no peito, pesa na consciência, pesa na esperança.

Não é só sobre política — é sobre a sensação de que estamos sendo testados todos os dias…
testados na nossa paciência, na nossa lucidez, na nossa capacidade de continuar acreditando.

A gente vê discursos que prometem cuidar dos mais frágeis,
mas muitas vezes parecem se alimentar da própria fragilidade que dizem combater.

E isso cansa… cansa de um jeito que não aparece, mas corrói por dentro.
O povo não está só dividido — está exausto.
E quando um povo se cansa demais, ele não grita… ele se perde.

E é aqui que eu me pergunto, com o coração apertado, mas com a responsabilidade de quem também faz parte disso tudo:
o que estamos nos permitindo?
Porque seja o que for — bom ou ruim — tudo é consequência do que começa em nós.
Das pequenas concessões. Dos silêncios convenientes. Das escolhas que a gente justifica quando deveria questionar.

Talvez a mudança que tanto exigimos precise, antes, encontrar espaço dentro da gente.
Não como desculpa para o erro do outro… mas como compromisso com aquilo que ainda pode ser diferente.

Eu não quero um país onde a resposta seja mais ódio, mais punição, mais dor.

Eu quero um país onde a responsabilidade exista — de verdade —
mas onde a consciência pese mais do que o castigo.

Porque no fim… se a gente perder a capacidade de sentir pelo outro,
já não importa mais quem venceu.
Todos nós já teremos perdido.”