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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Dor e cansaço...

Só um instantinho

Há dias em que a vida parece ficar sem inspiração.

Não porque tenham acabado as histórias, os sentimentos ou as palavras. Mas porque o corpo cansa. E quando o corpo cansa demais, até a alma parece pedir silêncio.

Ultimamente tenho me sentido assim.

As dores da artrite, da fibromialgia, esse cansaço que parece não ter fim… há momentos em que chega a ser cruel. E, ainda assim, a gente levanta, segue, conversa, sorri, responde às pessoas e tenta manter as aparências.

Porque, de alguma maneira, aprendemos que não podemos reclamar demais.

A dor incomoda.
O cansaço incomoda.
A tristeza incomoda.

E ninguém quer ser aquela pessoa que está sempre dizendo que não está bem.

Então a gente disfarça.

Reclama um pouquinho, só para não parecer que está tudo bem… mas não reclama demais, porque também não quer pesar na vida de ninguém.

Só que existe um preço para esse silêncio.

Esse cansaço tem roubado minhas horas de sono. E, junto com elas, tem levado um pouco da minha inspiração.

Eu, que tantas vezes acordei querendo escrever, querendo colocar palavras no mundo, querendo compartilhar alguma coisa logo pela manhã, tenho encontrado dias em que simplesmente não tenho forças.

E talvez eu precise aceitar isso.

Aceitar que existem fases em que a gente não produz, não cria, não floresce.

Apenas atravessa.

Mas eu também sei que a vida é feita de ciclos. E aquilo que hoje parece interminável, amanhã será apenas uma lembrança de um período difícil.

Eu vou voltar.

Vai voltar a vontade de escrever pela manhã.
Vai voltar a alegria de encontrar uma palavra e transformá-la em sentimento.
Vai voltar aquela mulher que acorda querendo conversar com o mundo através das palavras.

Por enquanto, talvez eu só precise me permitir existir assim: cansada, dolorida, menos inspirada… mas ainda aqui.

E me lembro de uma frase que li em uma carta psicografada, atribuída a um espírito que dizia à sua mãezinha:

“Isso é só um instante. É só um instantinho.”

É nisso que eu quero acreditar hoje.

Porque a dor pode ser grande.
O cansaço pode ser cruel.
Mas nenhum instante é eterno.

E esse também vai passar.

Depois, eu volto a escrever.

E, quem sabe, descubro que até esse silêncio tinha alguma coisa para me ensinar.

domingo, 21 de junho de 2026

Uma mãe, vários filhos...


Uma realidade muitas vezes escondida atrás de um comentário debochado...
Há muito mais mágoa pelo que não se teve do que espanto ou graça diante de uma mãe zelosa, presente e atenta.

Meus filhos sofreram um pouco com isso, é verdade. Afinal, eles eram os "pintinhos da mamãe". E eu sempre fui, antes de qualquer outra coisa, mãe.

Dediquei meu tempo, minha energia e meu coração. Estive ao lado deles nos momentos bons e nos difíceis. Falei o que precisava ser falado, sem deixar de caminhar junto, sem abandonar a mão que eu mesma ensinava a seguir o próprio caminho.

E talvez por isso muitos amigos deles — os de verdade, os da infância, aqueles que a vida foi trazendo para dentro da nossa casa — tenham acabado me considerando mais do que uma simples "tia". Eu me tornei uma espécie de mãe emprestada, um porto seguro, um colo disponível, um ouvido atento.

Hoje entendo que o amor vigilante de uma mãe pode até despertar algumas brincadeiras. Mas a ausência desse amor costuma deixar marcas muito mais profundas do que sua presença.

Porque filhos crescem, ganham o mundo, constroem suas próprias histórias... mas nunca deixam de precisar saber que existe um lugar onde são amados sem medida e sem condições.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Somos todas Marias... um texto às mães enlutadas!

Quando uma mãe perde um filho, todas as outras mães se aproximam. Não porque sintam a mesma dor — a dor da perda de um filho é única, impossível de ser medida ou comparada — mas porque cada mãe sabe, em alguma dimensão da alma, o peso que um filho ocupa dentro de nós.

Costumo dizer que somos todas Marias.

Marias que, em algum momento da vida, caminham até o pé de uma cruz invisível. Marias que aprendem sobre amor e entrega de uma forma que jamais desejaram aprender. Marias que seguem vivendo mesmo depois que uma parte de si parece ter partido.
Foi compreendendo a figura da Virgem Maria que comecei a elaborar meu luto. Não a Maria distante dos altares, mas a mãe. A mulher que viu o filho sofrer. A mulher que não pôde impedir. A mulher que precisou permanecer de pé quando tudo dentro dela desejava cair.
Naquele momento, percebi que não estava sozinha na minha dor. Havia uma mãe, há mais de dois mil anos, que conhecia aquele caminho.

E então encontrei uma outra reflexão, muito presente no espiritismo: a de que os filhos escolhem suas mães. Não somos nós que os escolhemos. Eles nos escolhem porque sabem que seremos o colo possível, o aprendizado necessário, o equipamento emocional e espiritual de que precisarão para a experiência que vieram viver.

Durante muito tempo, confesso que essa ideia me intrigou. Depois, ela me consolou.
Porque, se meu filho me escolheu, talvez tenha visto em mim uma força que eu mesma desconhecia. Talvez tenha sabido que eu conseguiria amá-lo exatamente como ele precisava ser amado. Talvez tenha sabido que, mesmo depois da despedida, eu encontraria um jeito de continuar carregando sua existência dentro de mim.

Hoje acredito que o amor entre mãe e filho não termina na ausência física. Ele muda de forma. Sai dos abraços e passa a habitar as lembranças. Sai da convivência diária e passa a morar na saudade. Sai dos olhos e passa a ocupar a alma.

E talvez seja por isso que nós, mães enlutadas, nos reconhecemos tão rapidamente umas nas outras.
Porque carregamos uma ausência que só outra mãe compreende.

E porque, no fundo, seguimos sendo Marias: feridas, saudosas, mas ainda capazes de amar.

terça-feira, 9 de junho de 2026

“O dia em que o câncer virou xingamento”

Foto copiada do site Dreamstime.

Ontem, ao buscar a minha neta na escola, eu passei por uma quadra em frente a uma outra escola. Nessa quadra tinham vários adolescentes, meninas, meninos. E aí eu escutei um dos adolescentes, com cara de desvirtuado, coitado, gritando assim para o outro, cala a boca, seu gay...seu gay esculhambado. Se você não calar a boca, eu vou desejar que você fique com câncer, que você morra com câncer.

 E aquilo me deu uma dor no peito, sabe? Aquilo me deu uma tristeza, porque aquele menino não sabe o que é a dor de um paciente com câncer. Ele não sabe o medo que uma pessoa sente quando está com câncer. Essa coisa que o doente terminal pensa...do eu não sei como vai ser o dia de amanhã, embora ninguém saiba como será o amanhã.

No entanto, a grande verdade é essa, que o paciente com câncer, sabe que ele está muito mais perto do desfecho do que uma pessoa saudável.

 E foi exatamente isso que me deu tristeza...  as crianças, os jovens,   perderam a alegria de viver, a singeleza do viver. E eu acho que nós pais perdemos a mão no educar.

O que mais dói nisso tudo é perceber que aquele menino não estava apenas xingando o outro. Ele estava banalizando a dor. Transformando sofrimento humano em arma de humilhação.

E talvez seja exatamente aí que esteja uma das maiores falhas do nosso tempo: muitos jovens aprenderam a reagir, atacar, ironizar… mas não aprenderam a sentir. Não aprenderam a reconhecer a fragilidade da vida, a doença, o medo, o limite do outro.
O câncer virou “xingamento”. A morte virou “deboche”. A diferença virou motivo de violência.

E isso revela uma pobreza emocional enorme.
Porque quem já viu um paciente com câncer de perto sabe… sabe do silêncio de quem tem medo do exame, da angústia de esperar um resultado, do cabelo que cai junto com a autoestima, do esforço para sorrir mesmo sentindo dor. Sabe do olhar de quem, pela primeira vez, entende que o amanhã não é garantido.

Tive uma reação profundamente humana: senti dor. Dor pelo menino ofendido. Dor pelo menino agressor. Dor pelo mundo que estamos construindo.

E talvez a razão não me falhe quando digo que nós, adultos, perdemos um pouco a mão no educar. Em algum momento, confundimos liberdade com ausência de limite. Proteção com falta de responsabilidade. E muitos jovens cresceram sem desenvolver empatia, sem compreender consequência, sem aprender que palavra também machuca, destrói, adoece.

Mas ainda acredito que há esperança exatamente em pessoas que, como eu, ainda se incomodam. Ainda sentem tristeza diante da crueldade. Porque o contrário da barbárie não é a perfeição — é a consciência.
E crianças não aprendem humanidade em discursos. Aprendem observando adultos humanos.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A régua: julgo você por mim!

Existe uma mania muito humana — e ao mesmo tempo muito injusta — de medir o outro pela nossa própria régua. Julgamos a dor do outro pela intensidade da nossa dor. Julgamos a força do outro pela nossa capacidade de suportar. Julgamos reações, sentimentos, escolhas e até limites emocionais com base naquilo que nós faríamos.

E talvez esteja aí um dos maiores erros da convivência humana.
Cada pessoa carrega uma história que ninguém vê inteira. Carrega marcas, medos, traumas, experiências, educação, criação, abandono, excesso de cobrança, falta de amor, excesso de responsabilidade… coisas que moldam profundamente sua forma de agir diante da vida.

Mas ainda assim, muita gente insiste em dizer: “Se fosse comigo, eu faria diferente.” “Eu no lugar dela já teria superado.” “Isso é fraqueza.” “É drama.” “É exagero.”
Não… talvez não seja.

Talvez seja apenas alguém vivendo uma batalha que você não suportaria viver nem por um dia.

Infelizmente, a maior parte das pessoas não percebe que julga o outro usando a própria estrutura emocional como referência. Só que aquilo que é fácil para um pode ser insuportável para outro. O que destrói uma pessoa pode não abalar outra. E vice-versa.
Há pessoas que suportam dores físicas absurdas e desmoronam emocionalmente por uma rejeição. Outras atravessam perdas gigantescas, mas não suportam pressão. Algumas conseguem trabalhar sob caos. Outras entram em colapso por excesso de cobrança.

E nenhuma delas está errada por isso.
Nem todo mundo nasceu com os mesmos recursos emocionais. Nem todo mundo teve apoio, acolhimento ou amor suficiente para aprender a enfrentar a vida da mesma maneira.

A empatia começa justamente quando abandonamos a arrogância de achar que nossa régua serve para medir o mundo inteiro.

Porque maturidade não é pensar: “Eu conseguiria.”
Maturidade é compreender: “Talvez eu nunca tenha vivido o que essa pessoa viveu.”
E talvez, se tivéssemos atravessado exatamente as mesmas dores, os mesmos abandonos, os mesmos medos e as mesmas noites em silêncio… agiríamos igual. Ou até pior.

Antes de julgar alguém, vale lembrar: aquilo que em você virou cicatriz, no outro ainda pode ser ferida aberta.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Tem dias que o Brasil pesa...

Foto Depositphotos.

Tem dias em que o Brasil pesa.

Pesa no peito, pesa na consciência, pesa na esperança.

Não é só sobre política — é sobre a sensação de que estamos sendo testados todos os dias…
testados na nossa paciência, na nossa lucidez, na nossa capacidade de continuar acreditando.

A gente vê discursos que prometem cuidar dos mais frágeis,
mas muitas vezes parecem se alimentar da própria fragilidade que dizem combater.

E isso cansa… cansa de um jeito que não aparece, mas corrói por dentro.
O povo não está só dividido — está exausto.
E quando um povo se cansa demais, ele não grita… ele se perde.

E é aqui que eu me pergunto, com o coração apertado, mas com a responsabilidade de quem também faz parte disso tudo:
o que estamos nos permitindo?
Porque seja o que for — bom ou ruim — tudo é consequência do que começa em nós.
Das pequenas concessões. Dos silêncios convenientes. Das escolhas que a gente justifica quando deveria questionar.

Talvez a mudança que tanto exigimos precise, antes, encontrar espaço dentro da gente.
Não como desculpa para o erro do outro… mas como compromisso com aquilo que ainda pode ser diferente.

Eu não quero um país onde a resposta seja mais ódio, mais punição, mais dor.

Eu quero um país onde a responsabilidade exista — de verdade —
mas onde a consciência pese mais do que o castigo.

Porque no fim… se a gente perder a capacidade de sentir pelo outro,
já não importa mais quem venceu.
Todos nós já teremos perdido.”