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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Estou exausta de ter medo...

Porque vou votar com eles...

EU ESTOU EXAUSTA DE TER MEDO

O que a gente pensa — ou deveria pensar — quando, através do voto, delega poderes a uma pessoa para decidir por nós?

Na Câmara dos Deputados, na Câmara de Vereadores, na Assembleia Legislativa, no Senado, na Presidência da República, nas prefeituras, nos governos dos estados...

O voto é muito mais do que escolher um nome.

É entregar a alguém uma parcela da nossa voz, da nossa confiança e do poder de decidir sobre aquilo que interfere diretamente na nossa vida.

E talvez seja justamente por isso que, neste momento, o meu voto esteja tão ligado à defesa da segurança pública.

Eu estou cansada.

Estou exausta de ter medo.

Cansada de ver tragédias.
De ver gente estirada no chão por causa de um tiro.
De ver carros parados nas estradas e pessoas se jogando ao chão, apavoradas, sem saber se serão as próximas vítimas.

Estou cansada de ter medo de sair com o celular.

De colocar um cordão, ainda que simples, no pescoço.

De usar uma aliança de casamento.

Cansada de pensar que objetos que, muitas vezes, nem têm um valor tão grande podem se transformar em motivo para alguém perder a própria vida.

Mas existe um medo ainda maior...

O medo de receber novamente a notícia de que um filho meu foi encontrado morto.

Eu já conheço essa dor.

E eu não quero passar por isso outra vez.

Não quero viver presa a esse sofrimento.

Mas também não quero transformar a minha dor em vingança.

Não quero alimentar ódio.

Não quero alimentar violência.

Quero outra coisa.

Quero acreditar que podemos construir uma sociedade em que a vida tenha valor.

Quero acreditar que, com representantes comprometidos com a segurança pública, podemos discutir e elaborar leis que acompanhem a realidade que estamos vivendo.

Uma sociedade mudou. Os problemas mudaram. As formas de violência também mudaram.

E talvez as nossas leis precisem acompanhar essas mudanças.

Não acredito que segurança pública seja sinônimo de vingança.

Não acredito que combater a criminalidade precise significar abandonar direitos, dignidade ou humanidade.

Mas também não acredito que proteger direitos possa significar ignorar o direito mais básico de todos: o direito de viver.

Por isso, quando penso no meu voto, penso também naquilo que eu espero daqueles a quem vou delegar poder.

Quero representantes que compreendam que segurança pública não é apenas uma pauta política.

É o direito de uma mãe voltar para casa.

É o direito de um trabalhador atravessar uma estrada sem precisar deitar no chão para se proteger de tiros.

É o direito de uma mulher usar sua aliança sem medo.

É o direito de um jovem sair de casa e voltar.

É o direito de uma família não receber a ligação que muda sua história para sempre.

É o direito de todos nós de viver sem que o medo determine até onde podemos ir.

Meu voto, neste momento, será também uma resposta àquilo que eu tenho vivido e observado.

Não por ódio.

Não por vingança.

Mas porque eu preciso acreditar.

Preciso acreditar que ainda é possível elaborar leis mais adequadas ao tempo em que vivemos.

Preciso acreditar que podemos encontrar caminhos para proteger a população sem abandonar a humanidade.

Preciso acreditar que vale a pena continuar morando aqui.

Preciso acreditar que o Brasil pode voltar a ser, para nós, mais do que um lugar bonito no mapa.

Quero continuar acreditando naquele verso que aprendemos a cantar:

“Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza...”

E talvez, depois de tudo...

ainda conseguir cantar:

“Mas que beleza...
mas que beleza.”

Porque eu não quero desistir do meu país.

Eu só quero poder viver nele sem medo.🙂.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

QUANDO O PACIENTE DEIXOU DE SER OUVIDO COM MAIS APURO?

QUANDO O PACIENTE DEIXA DE SER OUVIDO?

Ontem eu não estava bem.

Na verdade, a madrugada anterior tinha sido uma daquelas que a gente gostaria de apagar da memória.

Muita dor. Uma dor intensa no abdômen, principalmente na parte superior esquerda. Uma sensação estranha, acompanhada de barulhos no estômago que eu nunca tinha sentido daquela maneira. Depois vieram o enjoo e os vômitos... e o que mais me assustou foi perceber que o vômito estava escuro.

Amanheceu e pedi ao meu marido que me levasse à emergência.

Saímos de Muriqui em direção a Santa Teresa, debaixo de chuva, enfrentando um trânsito que já é difícil em dias normais. Levamos mais de três horas.

Cheguei à emergência com muita dor, cansada, depois de uma madrugada inteira sem dormir.

E quero começar fazendo uma ressalva muito importante:

Eu não fui maltratada.

Muito pelo contrário.

Fui bem recebida na recepção. A enfermeira da triagem foi atenciosa. A enfermeira que administrou a medicação também. O médico me tratou com educação.

Então não é sobre grosseria.

Não é sobre falta de respeito.

É sobre outra coisa...

É sobre a sensação de que faltou investigação.

Eu contei tudo o que estava acontecendo. Expliquei que sou bariátrica. Relatei a dor, os vômitos, a mudança na aparência do vômito, os sintomas que haviam surgido antes.

E fiquei surpresa quando percebi que meu abdômen sequer foi examinado fisicamente.

Não houve aquele exame que nós, pacientes, esperamos de um médico diante de uma dor abdominal: apertar, palpar, procurar onde dói mais, observar a reação do corpo, tentar entender o que aquela dor está dizendo.

A consulta pareceu se concentrar em um único aspecto do meu relato.

O mais simples.

O mais rápido.

E eu saí de lá medicada, sim. A dor melhorou, o enjoo melhorou...

Mas a minha pergunta continuou comigo:

E a causa?

É aí que começa a minha inquietação.

Será que estamos construindo uma medicina em que o tempo de consulta ficou tão curto que o médico precisa escolher rapidamente uma hipótese e seguir adiante?

Será que os protocolos, as autorizações, os custos e a necessidade de controlar despesas estão interferindo, ainda que indiretamente, na profundidade da investigação?

Eu não estou dizendo que o médico recebeu uma ordem para ser superficial.

Eu não tenho como afirmar isso.

Estou perguntando.

Porque existe uma diferença enorme entre atender um paciente e investigar um paciente.

E talvez essa diferença esteja passando despercebida por nós.

Eu penso também em nós dois, meu marido e eu, já idosos, saindo de tão longe, debaixo de chuva, enfrentando horas de estrada e trânsito, chegando a um hospital com uma pessoa em dor intensa, depois de uma madrugada inteira sem dormir...

Será que o sistema de saúde está conseguindo enxergar a pessoa que existe por trás do prontuário?

Ou estamos nos tornando apenas uma queixa, um código, um protocolo, uma medicação e um exame solicitado?

Eu reconheço que ninguém pode fazer todos os exames possíveis em todo paciente.

Eu reconheço que medicina não é adivinhação.

Eu reconheço que o médico precisa trabalhar com hipóteses e probabilidades.

Mas também acredito que uma boa medicina começa pela escuta e passa pelo olhar, pelo toque, pela investigação e pela capacidade de juntar as peças.

Eu saí da emergência melhor da dor.

Mas não saí tranquila.

E talvez essa seja a questão mais grave de todas:

Quando o paciente deixa o hospital medicado, mas continua sem entender o que aconteceu com ele, será que o atendimento terminou?

Ou será que apenas terminou a consulta?

Não quero acusar.

Quero provocar reflexão.

Porque saúde não pode ser apenas uma questão de custo, protocolo e velocidade.

Do outro lado daquela ficha existe uma pessoa.

E, algumas vezes, tudo o que essa pessoa espera é que alguém pare por alguns minutos e realmente tente descobrir o que o corpo dela está dizendo...

Um dia de cada vez... cada dia um pouquinho...

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

EM QUE MOMENTO NÓS NOS PERDEMOS?


Em que momento nós nos perdemos?

Há imagens que a gente assiste e gostaria de poder esquecer.

Mas algumas imagens não deveriam ser esquecidas.

Um pai caminhando tranquilamente com a filha pequena, aparentemente a caminho da escola. Uma criança ao seu lado, seguindo a rotina de qualquer manhã. Até que um carro se aproxima e, segundo o que mostram as imagens, homens atiram contra ele sem demonstrar qualquer preocupação com a presença daquela criança.

O motivo que levou à execução não é o que quero discutir aqui.

Porque existe algo ainda mais assustador do que tentar compreender por que alguém decidiu matar outro ser humano: é perceber que, naquele momento, aparentemente não houve sequer a preocupação de poupar uma criança do horror.

E isso me faz pensar que alguma coisa muito profunda se rompeu.

Durante muito tempo, mesmo no universo brutal da criminalidade, existiam limites que pareciam ser reconhecidos. Crianças, idosos, famílias... havia, ou pelo menos se imaginava haver, determinados códigos que não deveriam ser ultrapassados.

Hoje, até isso parece estar desaparecendo.

A vida humana está sendo banalizada.

A morte virou uma cena cotidiana. Um corpo no chão, tiros disparados em plena rua, pessoas correndo, alguém filmando, alguém comentando nas redes sociais... e, pouco depois, seguimos para o próximo assunto.

Como se a vida tivesse perdido o seu valor.

Como se matar fosse apenas mais um acontecimento.

E o que mais me assusta é que não estamos falando apenas de criminosos cada vez mais violentos. Estamos falando de uma sociedade que está sendo obrigada a conviver diariamente com o medo, com a insegurança e com a sensação de que ninguém está realmente protegido.

Hoje é um pai levando a filha para a escola.

Amanhã pode ser alguém indo trabalhar.

Uma mãe voltando para casa.

Um idoso atravessando a rua.

Uma criança brincando na calçada.

Quem será o próximo?

E não estou falando de uma cidade específica. O problema ultrapassou fronteiras. É um sentimento que alcança diferentes lugares deste país.

E nós vamos ficando cansados.

Cansados de assistir.

Cansados de sentir medo.

Cansados de ouvir histórias de pessoas assassinadas, assaltadas, sequestradas, vítimas de uma violência que parece não encontrar mais freios.

Cansados de precisar calcular caminhos, horários, lugares e riscos.

Cansados de tentar proteger quem amamos.

E talvez o mais perverso de tudo seja isso: a violência não mata apenas pessoas. Ela vai matando, aos poucos, a nossa sensação de liberdade.

A gente começa a ter medo de sair.

Medo de voltar.

Medo de estar no lugar errado, na hora errada.

Medo por nossos filhos, nossos netos, nossos pais.

E como continuar vivendo assim sem adoecer por dentro?

Como não sentir angústia diante de um mundo em que uma criança pode presenciar o assassinato do próprio pai simplesmente porque estava caminhando ao lado dele?

Eu me pergunto, sinceramente:

Em que momento nós nos perdemos enquanto humanidade?

Em que momento a vida passou a valer tão pouco?

Em que momento a crueldade deixou de chocar?

Em que momento uma criança deixou de ser um limite?

E, principalmente, até onde nós vamos?

Eu não tenho uma resposta.

Mas ainda quero acreditar que existe salvação.

Porque, se eu deixar de acreditar nisso, então a violência terá conseguido levar mais do que vidas. Terá levado também a nossa esperança.

Talvez a salvação comece justamente quando a gente se recusa a considerar o absurdo normal.

Quando uma morte ainda nos revolta.

Quando uma criança ainda nos faz parar e pensar.

Quando nos recusamos a dizer simplesmente: “É assim mesmo.”

Não. Não deveria ser assim.

Uma sociedade que perde a capacidade de se indignar diante da morte já começou a morrer também.

Por isso, diante dessas imagens, eu não quero apenas sentir medo.

Quero fazer a pergunta que talvez todos nós precisemos fazer:

Que país estamos deixando para nossas crianças?

E, se ainda houver salvação — e eu quero acreditar que há —, talvez ela comece quando decidirmos que a vida humana precisa voltar a ter valor.

Toda vida.

Sem exceção.

Porque quando uma criança deixa de ser um limite para a violência, não é apenas aquela família que está em perigo.

Somos todos nós.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

MEDO E ABANDONO NO RIO

Mais uma noite no Rio de Janeiro.
Uma noite que começou como tantas outras. A família reunida, as crianças em casa, a rotina seguindo seu curso. Mas bastaram alguns minutos para que o som seco dos disparos rompesse a normalidade. Não eram fogos de artifício. Eram tiros. Tiros que já se tornaram tão frequentes que algumas pessoas insistem em confundi-los com outra coisa, talvez numa tentativa desesperada de acreditar que a realidade não seja tão cruel.

Aqui, perto do apartamento do meu filho, o medo chegou antes mesmo da noite amadurecer.

E junto com ele veio um sentimento difícil de explicar. Um sentimento de abandono. A sensação de que estamos perdendo uma batalha que nem deveria existir. Vi meu filho fazer aquilo que qualquer pai faria: proteger sua família pedindo que ficassemos dentro do quarto. Vi meus netos vulneráveis diante de uma realidade que nenhuma criança deveria conhecer. E eu senti medo. Um medo profundo, daqueles que deixam a alma entorpecida.

Hoje, ainda tento organizar os pensamentos.
Como chegamos até aqui?
Em que momento nos acostumamos a viver entre barricadas, operações, confrontos e notícias de inocentes atingidos? Em que momento o direito de ir e vir passou a depender da sorte, do horário ou da rua escolhida?

O que está faltando para que haja uma reação verdadeira? O que falta para que o Rio de Janeiro recupere as rédeas da própria história? As rédeas do bem viver, da tranquilidade, da esperança?

Até quando a hipocrisia permitirá que discursos substituam ações?
Até quando a covardia impedirá que se enfrentem os problemas pelo nome que eles têm?
Até quando a conveniência política continuará servindo de desculpa para a inércia?

Porque o cidadão comum sabe o que está vendo. Sabe o que está ouvindo. Sabe o que está vivendo.

Quando homens circulam portando armamentos de guerra, quando territórios são dominados pelo medo, quando estratégias militares são usadas para sufocar adversários e controlar comunidades inteiras, não estamos falando apenas de criminalidade comum. Estamos falando de um nível de violência que transforma bairros em campos de tensão permanente e moradores em reféns de uma guerra que nunca escolheram travar.

Enquanto isso, famílias se escondem atrás de paredes, mães rezam pelos filhos, avós abraçam seus netos e tentam fingir serenidade para não aumentar o medo das crianças.

Mas a verdade é que estamos cansados.
Cansados de enterrar sonhos.
Cansados de adaptar a vida ao medo.
Cansados de ouvir promessas.
O Rio de Janeiro merece mais do que sobreviver. Seu povo merece viver.

E talvez a pergunta mais urgente não seja apenas como chegamos até aqui.
Talvez seja: quanto mais estamos dispostos a perder antes de decidir que já perdemos demais?

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Depois da porta arrombadada...


Eu sei que a imagem é caricata demais... no entanto ela expressa parte do que quero conversar com vocês.

Existe um ditado antigo que diz que não adianta colocar cadeado depois da porta arrombada. Ainda assim, quantas vezes fazemos exatamente isso?

Vivemos adiando cuidados, ignorando sinais, acreditando que determinadas tragédias acontecem apenas com os outros. Até que um dia a notícia chega perto. Às vezes tão perto que atravessa a nossa própria porta.

Foi assim com o episódio que tomou conta das conversas destes últimos dias. Um salto sem a corda. Um risco subestimado. Uma vida interrompida. E, de repente, surgem as perguntas, os alertas, as discussões, as preocupações que deveriam ter existido antes.

Mas essa não é apenas uma reflexão sobre um acontecimento específico. É uma reflexão sobre nós.

Por que esperamos o diagnóstico para cuidar da saúde?

Por que esperamos perder alguém para dizer o quanto amamos?

Por que esperamos o acidente para revisar os procedimentos?

Por que esperamos a solidão para valorizar as companhias?

Parece que o ser humano possui uma estranha tendência a acreditar que o amanhã está garantido. Como se a vida tivesse nos concedido um contrato de permanência sem prazo para terminar.

Não tem.

A vida é um empréstimo diário.

Talvez a verdadeira sabedoria esteja em desenvolver a capacidade de aprender com as portas arrombadas dos outros, sem precisar que a nossa seja destruída também.

Prevenir nunca terá o mesmo impacto emocional que remediar. O problema é que, muitas vezes, quando a lição chega pela dor, ela vem acompanhada de perdas irreparáveis.

A maturidade nos ensina que prudência não é medo. Cuidado não é pessimismo. Atenção não é excesso de preocupação.

É apenas respeito pela fragilidade da vida.

E talvez seja exatamente isso que os acontecimentos mais marcantes tentam nos lembrar: algumas cordas precisam ser verificadas antes do salto. Algumas portas precisam ser protegidas antes da invasão. Alguns abraços precisam ser dados antes da despedida.
Porque existem coisas que podem ser consertadas depois.
Outras, infelizmente, não.

A superficialidade no viver não pode e nem deve nos causar riscos desnecessários!