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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

EM QUE MOMENTO NÓS NOS PERDEMOS?


Em que momento nós nos perdemos?

Há imagens que a gente assiste e gostaria de poder esquecer.

Mas algumas imagens não deveriam ser esquecidas.

Um pai caminhando tranquilamente com a filha pequena, aparentemente a caminho da escola. Uma criança ao seu lado, seguindo a rotina de qualquer manhã. Até que um carro se aproxima e, segundo o que mostram as imagens, homens atiram contra ele sem demonstrar qualquer preocupação com a presença daquela criança.

O motivo que levou à execução não é o que quero discutir aqui.

Porque existe algo ainda mais assustador do que tentar compreender por que alguém decidiu matar outro ser humano: é perceber que, naquele momento, aparentemente não houve sequer a preocupação de poupar uma criança do horror.

E isso me faz pensar que alguma coisa muito profunda se rompeu.

Durante muito tempo, mesmo no universo brutal da criminalidade, existiam limites que pareciam ser reconhecidos. Crianças, idosos, famílias... havia, ou pelo menos se imaginava haver, determinados códigos que não deveriam ser ultrapassados.

Hoje, até isso parece estar desaparecendo.

A vida humana está sendo banalizada.

A morte virou uma cena cotidiana. Um corpo no chão, tiros disparados em plena rua, pessoas correndo, alguém filmando, alguém comentando nas redes sociais... e, pouco depois, seguimos para o próximo assunto.

Como se a vida tivesse perdido o seu valor.

Como se matar fosse apenas mais um acontecimento.

E o que mais me assusta é que não estamos falando apenas de criminosos cada vez mais violentos. Estamos falando de uma sociedade que está sendo obrigada a conviver diariamente com o medo, com a insegurança e com a sensação de que ninguém está realmente protegido.

Hoje é um pai levando a filha para a escola.

Amanhã pode ser alguém indo trabalhar.

Uma mãe voltando para casa.

Um idoso atravessando a rua.

Uma criança brincando na calçada.

Quem será o próximo?

E não estou falando de uma cidade específica. O problema ultrapassou fronteiras. É um sentimento que alcança diferentes lugares deste país.

E nós vamos ficando cansados.

Cansados de assistir.

Cansados de sentir medo.

Cansados de ouvir histórias de pessoas assassinadas, assaltadas, sequestradas, vítimas de uma violência que parece não encontrar mais freios.

Cansados de precisar calcular caminhos, horários, lugares e riscos.

Cansados de tentar proteger quem amamos.

E talvez o mais perverso de tudo seja isso: a violência não mata apenas pessoas. Ela vai matando, aos poucos, a nossa sensação de liberdade.

A gente começa a ter medo de sair.

Medo de voltar.

Medo de estar no lugar errado, na hora errada.

Medo por nossos filhos, nossos netos, nossos pais.

E como continuar vivendo assim sem adoecer por dentro?

Como não sentir angústia diante de um mundo em que uma criança pode presenciar o assassinato do próprio pai simplesmente porque estava caminhando ao lado dele?

Eu me pergunto, sinceramente:

Em que momento nós nos perdemos enquanto humanidade?

Em que momento a vida passou a valer tão pouco?

Em que momento a crueldade deixou de chocar?

Em que momento uma criança deixou de ser um limite?

E, principalmente, até onde nós vamos?

Eu não tenho uma resposta.

Mas ainda quero acreditar que existe salvação.

Porque, se eu deixar de acreditar nisso, então a violência terá conseguido levar mais do que vidas. Terá levado também a nossa esperança.

Talvez a salvação comece justamente quando a gente se recusa a considerar o absurdo normal.

Quando uma morte ainda nos revolta.

Quando uma criança ainda nos faz parar e pensar.

Quando nos recusamos a dizer simplesmente: “É assim mesmo.”

Não. Não deveria ser assim.

Uma sociedade que perde a capacidade de se indignar diante da morte já começou a morrer também.

Por isso, diante dessas imagens, eu não quero apenas sentir medo.

Quero fazer a pergunta que talvez todos nós precisemos fazer:

Que país estamos deixando para nossas crianças?

E, se ainda houver salvação — e eu quero acreditar que há —, talvez ela comece quando decidirmos que a vida humana precisa voltar a ter valor.

Toda vida.

Sem exceção.

Porque quando uma criança deixa de ser um limite para a violência, não é apenas aquela família que está em perigo.

Somos todos nós.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

MEDO E ABANDONO NO RIO

Mais uma noite no Rio de Janeiro.
Uma noite que começou como tantas outras. A família reunida, as crianças em casa, a rotina seguindo seu curso. Mas bastaram alguns minutos para que o som seco dos disparos rompesse a normalidade. Não eram fogos de artifício. Eram tiros. Tiros que já se tornaram tão frequentes que algumas pessoas insistem em confundi-los com outra coisa, talvez numa tentativa desesperada de acreditar que a realidade não seja tão cruel.

Aqui, perto do apartamento do meu filho, o medo chegou antes mesmo da noite amadurecer.

E junto com ele veio um sentimento difícil de explicar. Um sentimento de abandono. A sensação de que estamos perdendo uma batalha que nem deveria existir. Vi meu filho fazer aquilo que qualquer pai faria: proteger sua família pedindo que ficassemos dentro do quarto. Vi meus netos vulneráveis diante de uma realidade que nenhuma criança deveria conhecer. E eu senti medo. Um medo profundo, daqueles que deixam a alma entorpecida.

Hoje, ainda tento organizar os pensamentos.
Como chegamos até aqui?
Em que momento nos acostumamos a viver entre barricadas, operações, confrontos e notícias de inocentes atingidos? Em que momento o direito de ir e vir passou a depender da sorte, do horário ou da rua escolhida?

O que está faltando para que haja uma reação verdadeira? O que falta para que o Rio de Janeiro recupere as rédeas da própria história? As rédeas do bem viver, da tranquilidade, da esperança?

Até quando a hipocrisia permitirá que discursos substituam ações?
Até quando a covardia impedirá que se enfrentem os problemas pelo nome que eles têm?
Até quando a conveniência política continuará servindo de desculpa para a inércia?

Porque o cidadão comum sabe o que está vendo. Sabe o que está ouvindo. Sabe o que está vivendo.

Quando homens circulam portando armamentos de guerra, quando territórios são dominados pelo medo, quando estratégias militares são usadas para sufocar adversários e controlar comunidades inteiras, não estamos falando apenas de criminalidade comum. Estamos falando de um nível de violência que transforma bairros em campos de tensão permanente e moradores em reféns de uma guerra que nunca escolheram travar.

Enquanto isso, famílias se escondem atrás de paredes, mães rezam pelos filhos, avós abraçam seus netos e tentam fingir serenidade para não aumentar o medo das crianças.

Mas a verdade é que estamos cansados.
Cansados de enterrar sonhos.
Cansados de adaptar a vida ao medo.
Cansados de ouvir promessas.
O Rio de Janeiro merece mais do que sobreviver. Seu povo merece viver.

E talvez a pergunta mais urgente não seja apenas como chegamos até aqui.
Talvez seja: quanto mais estamos dispostos a perder antes de decidir que já perdemos demais?

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Depois da porta arrombadada...


Eu sei que a imagem é caricata demais... no entanto ela expressa parte do que quero conversar com vocês.

Existe um ditado antigo que diz que não adianta colocar cadeado depois da porta arrombada. Ainda assim, quantas vezes fazemos exatamente isso?

Vivemos adiando cuidados, ignorando sinais, acreditando que determinadas tragédias acontecem apenas com os outros. Até que um dia a notícia chega perto. Às vezes tão perto que atravessa a nossa própria porta.

Foi assim com o episódio que tomou conta das conversas destes últimos dias. Um salto sem a corda. Um risco subestimado. Uma vida interrompida. E, de repente, surgem as perguntas, os alertas, as discussões, as preocupações que deveriam ter existido antes.

Mas essa não é apenas uma reflexão sobre um acontecimento específico. É uma reflexão sobre nós.

Por que esperamos o diagnóstico para cuidar da saúde?

Por que esperamos perder alguém para dizer o quanto amamos?

Por que esperamos o acidente para revisar os procedimentos?

Por que esperamos a solidão para valorizar as companhias?

Parece que o ser humano possui uma estranha tendência a acreditar que o amanhã está garantido. Como se a vida tivesse nos concedido um contrato de permanência sem prazo para terminar.

Não tem.

A vida é um empréstimo diário.

Talvez a verdadeira sabedoria esteja em desenvolver a capacidade de aprender com as portas arrombadas dos outros, sem precisar que a nossa seja destruída também.

Prevenir nunca terá o mesmo impacto emocional que remediar. O problema é que, muitas vezes, quando a lição chega pela dor, ela vem acompanhada de perdas irreparáveis.

A maturidade nos ensina que prudência não é medo. Cuidado não é pessimismo. Atenção não é excesso de preocupação.

É apenas respeito pela fragilidade da vida.

E talvez seja exatamente isso que os acontecimentos mais marcantes tentam nos lembrar: algumas cordas precisam ser verificadas antes do salto. Algumas portas precisam ser protegidas antes da invasão. Alguns abraços precisam ser dados antes da despedida.
Porque existem coisas que podem ser consertadas depois.
Outras, infelizmente, não.

A superficialidade no viver não pode e nem deve nos causar riscos desnecessários!