Será que você vem observando o que está acontecendo com o pessoal da segurança pública no Rio de Janeiro?
Pois é... eu venho observando.
Tenho acompanhado o movimento de profissionais da segurança pública que estão colocando seus nomes à disposição para disputar cargos legislativos e executivos. Policiais federais, civis, militares e outros profissionais que conhecem a criminalidade não apenas pelos números das estatísticas, mas pelo que encontram todos os dias nas ruas.
E há algo nesse movimento que merece ser analisado com atenção.
Talvez muitos desses profissionais tenham chegado à conclusão de que não basta continuar prendendo.
Não basta prender o assaltante, o traficante, o integrante de uma organização criminosa... para, pouco tempo depois, vê-lo de volta às ruas por brechas legais, interpretações jurídicas, fragilidades processuais ou por um sistema que, em determinados casos, não consegue manter preso quem representa efetivamente uma ameaça à sociedade.
E aqui é preciso fazer uma distinção: não estou dizendo que toda soltura seja ilegal ou que todo profissional do Judiciário esteja equivocado. O Estado de Direito exige regras, devido processo e garantias. O problema é outro:
as leis e as estruturas criadas para combater o crime precisam acompanhar a velocidade com que o crime se organiza.
O crime mudou.
As organizações criminosas mudaram.
O narcotráfico se profissionalizou, ampliou seus territórios, criou redes financeiras, armamentos, comunicação e logística cada vez mais sofisticadas.
E nós ainda discutimos muitas vezes como se estivéssemos enfrentando o mesmo criminoso de décadas atrás.
Enquanto isso, quem está na ponta dá o murro em ponta de faca.
Prende.
Investiga.
Produz provas.
Arrisca a própria vida.
E, quando o criminoso volta para a rua, muitas vezes retorna ainda mais estruturado e perigoso.
É compreensível, portanto, que parte desses profissionais esteja começando a olhar para o Legislativo e pensar:
“Talvez eu precise estar lá para mudar aquilo que, aqui fora, eu não consigo mudar.”
Porque segurança pública não se faz somente com viatura, fuzil, investigação e operação policial.
Segurança pública também se faz com leis adequadas à realidade, inteligência, integração entre instituições, investigação financeira, fortalecimento das estruturas policiais, sistema prisional eficiente e um sistema de Justiça capaz de responsabilizar, dentro da lei, quem efetivamente comete crimes.
E talvez seja justamente essa percepção que esteja levando tantos profissionais da segurança a sair das ruas e entrar na política.
Não necessariamente porque desistiram de combater o crime.
Talvez porque tenham entendido que combater o crime também significa combater, dentro das instituições, aquilo que permite que ele continue se reproduzindo.
E há ainda uma discussão maior, que merece ser feita com muita responsabilidade: como aperfeiçoar os mecanismos de controle e responsabilização de todos os agentes públicos envolvidos no sistema de Justiça, preservando a independência institucional e as garantias constitucionais.
Eu mesma já pensei sobre a possibilidade de mecanismos diferentes de escolha ou avaliação para determinadas funções do sistema de Justiça. Mas isso é um debate constitucional e institucional complexo, que não pode ser reduzido a simplesmente “eleger juiz”. Afinal, independência judicial também é uma garantia importante do Estado de Direito.
O ponto central, para mim, é outro:
não podemos exigir que o policial resolva sozinho um problema que é muito maior do que a polícia.
Enquanto um profissional arrisca a vida para retirar um criminoso das ruas, o restante do sistema precisa funcionar.
Porque, se não funciona, chegamos a uma situação perversa:
o policial prende, o criminoso retorna e a sociedade continua refém.
E talvez seja justamente por isso que estamos vendo tantos homens e mulheres da segurança pública decidindo ocupar espaços na política.
Eles já experimentaram o limite da atuação de dentro das ruas.
Agora querem participar da construção das regras que organizam o jogo.
E isso, gostemos ou não, é um movimento que merece ser observado.
Porque quando quem passa a vida combatendo o crime começa a concluir que precisa entrar no Legislativo para mudar as condições desse combate...
talvez seja um sinal de que há alguma coisa muito séria precisando ser discutida no Brasil.