sexta-feira, 22 de maio de 2026

A arte de criar filhos em tempos modernos... parte 2

Há uma sabedoria muito profunda nesse provérbio japonês:
“A ponte que resiste ao rio não é a que desafia a corrente, mas a que aprende onde apoiar seus pilares.”
No cotidiano, principalmente na educação dos filhos, isso fala menos sobre força… e muito mais sobre inteligência emocional, adaptação e equilíbrio.
Muitos pais acreditam que educar é controlar cada passo, endurecer regras, impor vontades e lutar contra tudo aquilo que o mundo moderno traz. Mas filhos não são rios que podemos represar eternamente. Eles crescem, pensam, questionam, sentem, erram, se transformam.
E talvez o grande desafio da maternidade e da paternidade atual seja justamente entender onde apoiar os pilares.
Porque uma ponte forte não é feita apenas de concreto. Ela é construída com cálculo, flexibilidade e compreensão da força da correnteza. Pais também precisam aprender isso.
Há momentos em que será necessário firmeza. Em outros, escuta. Às vezes orientação. Às vezes silêncio. Às vezes acolhimento. Às vezes limites muito claros.
Educar filhos hoje exige perceber que o mundo mudou. As dores mudaram. As influências são outras. As pressões emocionais são enormes. Redes sociais, excesso de informação, ansiedade, comparações, imediatismo… tudo isso atravessa a vida deles diariamente.
E muitos conflitos familiares nascem quando tentamos educar nossos filhos apenas com os pilares do passado, ignorando a correnteza do presente.
Isso não significa abrir mão de valores. Significa aprender a sustentá-los de maneira que não quebre a ponte entre pais e filhos.
Porque filhos que só recebem rigidez podem aprender medo. Filhos que só recebem liberdade podem crescer sem direção. Mas filhos que encontram apoio, coerência, diálogo e presença… geralmente encontram um caminho de volta, mesmo quando a vida os leva para longe por algum tempo.
Talvez educar seja exatamente isso: não lutar contra o rio o tempo inteiro… mas construir relações fortes o suficiente para atravessá-lo juntos.

“Coerência tem seu preço: nem sempre serei unanimidade.”

Nem sempre eu digo o que as pessoas querem ouvir. Procuro ser coerente com meus pensamentos, com minha índole e com minha essência.

Também nem sempre vou escrever ou falar de uma forma que a minha própria família considere exatamente como fui educada. E isso é natural. O tempo, os valores, as dores e as marcas da vida foram ampliando minha percepção sobre a existência, sobre reforma íntima e sobre o ser humano.

O que sou hoje talvez não seja uma cópia exata daquilo que aprendi na infância. Não. Carrega a base do que vivi, mas passou por transformação, amadurecimento e aperfeiçoamento.

Talvez eu tenha me tornado mais religiosa no sentido mais amplo da palavra. Mais preocupada com justiça, com direitos, com humanidade e, principalmente, com a prática verdadeira da palavra de Deus — sem estar presa às amarras de uma religião específica.
Procuro manter um pensamento crítico, mas também coerente. E mais do que falar sobre valores, procuro ser exemplo deles.

Por isso, não escrevo para agradar pessoas ou para confirmar aquilo que elas já pensam. Escrevo sobre aquilo em que realmente acredito.

Mesmo que isso me faça escolher um lado do muro. Mesmo que provoque desconforto. Mesmo que existam costas viradas, narizes torcidos ou gritos pelo caminho.

Porque, no fim, o que realmente importa para mim é que, em algum lugar, de alguma forma, minhas palavras possam tocar alguém e despertar um exercício mais verdadeiro de justiça, consciência e humanidade.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A PEDRA, A RÉGUA E A INCOERÊNCIA HUMANA!



“Quem nunca pecou, atire a primeira pedra.”
A frase dita em Bíblia Sagrada atravessa séculos porque continua descrevendo exatamente quem somos.

Vivemos tempos em que muitos falam de Deus. Uns chamam Deus de Pai, outros de Alá, Oxalá, Jeová… pouco importa o nome dado em cada idioma, em cada crença, em cada religião. No fundo, todas pregam algo muito parecido: amor, compaixão, perdão, respeito, humanidade.

Mas de que adianta sermos tão religiosos, tão “crentes”, tão defensores da fé, se a régua que usamos para julgar o outro não tem absolutamente nada a ver com aquilo que aprendemos nas palavras sagradas?

É curioso como sabemos citar versículos, repetir ensinamentos, compartilhar mensagens bonitas… e, ainda assim, muitas vezes tratamos as pessoas com dureza, arrogância e crueldade.

Parece que existe uma enorme distância entre aquilo que pregamos e aquilo que praticamos.

Queremos misericórdia para os nossos erros, mas justiça severa para os erros alheios.
Pedimos compreensão para as nossas falhas, mas dificilmente oferecemos a mesma compreensão ao próximo.

Defendemos amor ao próximo… até que o próximo pense diferente de nós, erre diferente de nós ou viva diferente de nós.
E então surge a velha incoerência humana:
“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.”

Talvez a verdadeira espiritualidade não esteja na quantidade de vezes que alguém entra em um templo, em uma igreja ou em uma cerimônia religiosa. Talvez ela esteja na forma como essa pessoa olha para quem caiu.

Porque é muito fácil carregar a pedra nas mãos. Difícil é soltá-la.
Difícil é corrigir sem humilhar.
Discordar sem destruir.
Ter fé sem arrogância.
Defender valores sem perder a humanidade.

Afinal, ninguém passa pela vida sem errar. Ninguém é completamente puro a ponto de ter autoridade moral para apedrejar o outro sem antes olhar para si mesmo.

No fim, talvez Deus — independentemente do nome que cada um lhe dê — esteja menos interessado nos discursos que fazemos sobre fé e muito mais interessado na maneira como fazemos as pessoas se sentirem quando cruzam o nosso caminho.

A arte de criar filhos em tempos modernos... parte 1


Ser pai e mãe nos tempos modernos talvez seja uma das tarefas mais desafiadoras da vida. Porque existe uma ilusão silenciosa que acompanha muitas famílias: a de que, oferecendo a mesma educação, os filhos necessariamente seguirão caminhos parecidos. Mas não é assim.

Dentro de uma mesma casa nascem universos diferentes.
O filho mais sensível.
O mais rebelde.
O que agrada.
O que confronta.
O que precisa de colo.
O que parece não precisar de ninguém.
O que guarda tudo.
O que explode.

E então os pais se perguntam, muitas vezes em silêncio:
“Onde foi que erramos?”
Mas nem sempre existe erro. Existe individualidade.
Cada filho chega ao mundo carregando sua própria forma de sentir, interpretar, reagir e existir. A educação é a mesma… mas o coração que recebe essa educação nunca é igual.

Há filhos que transformam dor em força.
Outros transformam proteção em sufoco.
Uns amadurecem cedo.
Outros passam a vida inteira procurando respostas.
E talvez a parte mais difícil de ser pai e mãe seja exatamente aceitar que amor não é controle.

Educar não é moldar cópias.
Criar filhos é, muitas vezes, aprender a amar pessoas completamente diferentes de nós — e diferentes entre si.
Os tempos modernos ainda acrescentaram novos ingredientes:
a internet educando junto,
as redes sociais influenciando valores,
a ansiedade precoce,
as comparações constantes,
a necessidade de pertencimento,
os conflitos de identidade,
a pressa do mundo.

Os pais de hoje tentam equilibrar diálogo sem perder autoridade.
Tentam acolher sem passar a mão na cabeça.
Tentam ensinar limites em uma sociedade que confunde liberdade com ausência deles.
E no meio disso tudo existe a culpa.
A eterna culpa dos pais.

Mas talvez seja preciso compreender algo importante:
bons pais não são os que conseguem filhos perfeitos.
São os que permanecem presentes.
Os que tentam.
Os que escutam.
Os que corrigem quando necessário.
Os que também erram, pedem desculpas e continuam amando.

E quando um filho toma um caminho cujas atitudes em nada coadunam com os discursos e valores vividos dentro da própria família? Quando tudo aquilo que foi ensinado parece ter se perdido no meio do caminho?
Talvez esse seja um dos momentos mais dolorosos para um pai e uma mãe. Porque além da preocupação, nasce também a impotência. Surge a sensação de fracasso. O medo do julgamento. A pergunta silenciosa que corrói por dentro: “Como alguém criado no mesmo lar escolheu um rumo tão diferente?”

Mas novamente a vida lembra algo difícil de aceitar: os filhos passam pela nossa formação… mas pertencem às próprias escolhas.

E isso não significa desistir. Significa compreender que amor também é firmeza. Que acolher não é concordar com tudo. Que impor limites ainda é necessário. Que algumas vezes será preciso dizer “não”, manter distância de certas atitudes e permitir que a vida ensine lições que os pais já tentaram ensinar em palavras.

Há momentos em que o diálogo ajuda. Outros em que a ajuda profissional se faz necessária. E existem aqueles em que os pais precisarão apenas permanecer ali… como porto… esperando que o filho encontre o caminho de volta para si mesmo.

Porque educar nunca foi garantir resultados. Educar sempre foi plantar.
E quem planta amor, valores, caráter e presença talvez não controle a colheita imediata… mas dificilmente terá semeado em vão.

Por  fim, ser pai e mãe é viver permanentemente entre duas dores: a de querer proteger os filhos do mundo… e a de compreender que, em algum momento, eles precisarão enfrentar o mundo — e a si mesmos — pelas próprias escolhas.

E talvez a verdadeira arte de educar esteja justamente aí: em oferecer raízes sem aprisionar asas.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Depois de 10 anos encontrei meu eixo...


Muita gente me pergunta como consegui, agora em 2026, voltar a postar quase todos os dias no blog.

Inspirações nunca me faltaram. Mas inspiração sozinha não sustenta ninguém quando a mente está cansada, ferida ou perdida de si mesma.

Depois de 10 anos de terapia, de tratamento psiquiátrico, de medicações e de muito enfrentamento interno, consegui reencontrar meu eixo. E isso não aconteceu por acaso.

Seguindo o conselho e sendo acolhida por aquela que literalmente ajudou a salvar meu psiquismo e minha estrutura emocional, a doutora Danielle Rodrigues Hassene, fui aprendendo, aos poucos, a voltar para mim mesma.

Hoje consigo escrever novamente com constância. Consigo transformar dor em reflexão, saudade em palavras, e pensamentos em algo que talvez também ajude outras pessoas.

E se eu pudesse deixar um conselho para alguém que esteja vivendo ansiedade, depressão, angústia ou qualquer sofrimento emocional, eu diria: procure ajuda.
Se puder, faça terapia. Procure um psicoterapeuta, um psicólogo, um psiquiatra.

 Não trate a saúde mental como algo menor.
E se as condições financeiras forem difíceis, procure os CAPS do seu município. O serviço público pode ser um apoio fundamental para muita gente.

Nós aprendemos desde cedo a cuidar da saúde física, mas os tempos atuais têm mostrado, cada vez mais, o quanto a saúde mental também precisa de atenção, acolhimento e tratamento.

Pedir ajuda não é fraqueza. Às vezes, é exatamente o primeiro passo para voltar ao próprio eixo.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

QUANDO O AMOR PERMANECE...


Ainda estou profundamente emocionada com o desencarne do comandante Felipe.
E fico olhando as fotos… no Instagram, no Facebook… tentando entender como algumas pessoas conseguem transformar até a dor em testemunho de amor.

No meio de tudo o que vimos nesse último ano — a luta, a guerra diária pela sobrevivência, a coragem diante da doença — existe algo que me atravessa o coração de maneira muito forte: o amor deles.

O comandante Felipe foi exemplo de força. De resistência. De luta pela vida até o último instante. E sua história também nos faz refletir sobre o quanto o Rio de Janeiro precisa olhar com mais seriedade para a segurança pública, valorizando quem realmente conhece a guerra das ruas, e não entregando temas tão sérios nas mãos de amadores.

Mas hoje, meu olhar também repousa sobre Keidna Marques.
Essa mulher exemplifica o amor.
Um amor puro. Um amor dedicado. Um amor bíblico.

Porque amar também é permanecer. É cuidar quando o outro já não consegue. É sustentar esperança mesmo enquanto o coração sangra. É estar presente em cada consulta, em cada noite difícil, em cada silêncio, em cada oração.

Ao olhar para ela e para tudo o que fez durante esse processo, é impossível não enxergar a beleza de um amor verdadeiro.

Que Deus fortaleça essa mulher. Que Deus a ampare nos dias em que a saudade apertar. E que permita que ela atravesse esse período com dignidade, fé e força… mesmo sabendo que existem dores que palavra nenhuma consegue alcançar.

A régua: julgo você por mim!

Existe uma mania muito humana — e ao mesmo tempo muito injusta — de medir o outro pela nossa própria régua. Julgamos a dor do outro pela intensidade da nossa dor. Julgamos a força do outro pela nossa capacidade de suportar. Julgamos reações, sentimentos, escolhas e até limites emocionais com base naquilo que nós faríamos.

E talvez esteja aí um dos maiores erros da convivência humana.
Cada pessoa carrega uma história que ninguém vê inteira. Carrega marcas, medos, traumas, experiências, educação, criação, abandono, excesso de cobrança, falta de amor, excesso de responsabilidade… coisas que moldam profundamente sua forma de agir diante da vida.

Mas ainda assim, muita gente insiste em dizer: “Se fosse comigo, eu faria diferente.” “Eu no lugar dela já teria superado.” “Isso é fraqueza.” “É drama.” “É exagero.”
Não… talvez não seja.

Talvez seja apenas alguém vivendo uma batalha que você não suportaria viver nem por um dia.

Infelizmente, a maior parte das pessoas não percebe que julga o outro usando a própria estrutura emocional como referência. Só que aquilo que é fácil para um pode ser insuportável para outro. O que destrói uma pessoa pode não abalar outra. E vice-versa.
Há pessoas que suportam dores físicas absurdas e desmoronam emocionalmente por uma rejeição. Outras atravessam perdas gigantescas, mas não suportam pressão. Algumas conseguem trabalhar sob caos. Outras entram em colapso por excesso de cobrança.

E nenhuma delas está errada por isso.
Nem todo mundo nasceu com os mesmos recursos emocionais. Nem todo mundo teve apoio, acolhimento ou amor suficiente para aprender a enfrentar a vida da mesma maneira.

A empatia começa justamente quando abandonamos a arrogância de achar que nossa régua serve para medir o mundo inteiro.

Porque maturidade não é pensar: “Eu conseguiria.”
Maturidade é compreender: “Talvez eu nunca tenha vivido o que essa pessoa viveu.”
E talvez, se tivéssemos atravessado exatamente as mesmas dores, os mesmos abandonos, os mesmos medos e as mesmas noites em silêncio… agiríamos igual. Ou até pior.

Antes de julgar alguém, vale lembrar: aquilo que em você virou cicatriz, no outro ainda pode ser ferida aberta.

domingo, 17 de maio de 2026

Comandante Felipe / luto e revolta pela violência

Foto tirada do perfil do Instagram da viúva Kleidna.

Ele poderia ser meu filho… ou o seu… ou o da vizinha ao lado…

E hoje, uma família inteira chora.
Chora o homem que partiu cansado de uma luta de meses após o maldito tiro…

Chora a ausência na cadeira vazia, o silêncio da casa, os planos interrompidos.
E fica em nós esse grito preso na garganta: até quando?

Até quando pais e mães de família — civis ou militares — terão que morrer tentando nos proteger, sem sequer serem protegidos?
Então começam as fases do luto…

O entorpecimento… a negação… a revolta…
E talvez a revolta seja a pior delas, porque ela corrói por dentro.

Ela nos faz querer apontar culpados, gritar contra políticos, governos, leis frouxas, contra toda a estrutura que parece falhar justamente com quem trabalha, sonha e luta para sobreviver honestamente.

E eu entendo essa revolta.
Porque quem já perdeu um filho para a violência nunca mais olha o mundo da mesma forma.

Uma parte da gente morre junto.
Mas no meio dessa dor, existe algo que não pode morrer: nossa humanidade.
Não podemos permitir que a banalização da violência transforme vidas em números e manchetes passageiras.

Cada pessoa perdida tinha nome, história, família, sonhos e alguém esperando seu retorno para casa.

Hoje, não é dia de disputa política.
É dia de lembrar que nenhuma mãe deveria enterrar um filho.
Nenhuma criança deveria crescer sem o abraço do pai.
Nenhuma família deveria aprender a sobreviver carregando um vazio causado pela violência.

Que anjos de Luz e Afinidades o acompanhe em seu retorno ao nosso Verdadeiro Lar!  Que Felipe descanse em paz.

E que Deus conforte todos os corações feridos — os de hoje… e os que ainda sangram perdas antigas que nunca cicatrizaram completamente.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Banheiros Unisex X segurança

Vivemos tempos em que qualquer opinião parece precisar virar guerra. E talvez um dos assuntos mais delicados da atualidade seja justamente a discussão sobre os banheiros femininos e a presença de mulheres trans nesses espaços.

Quero deixar algo muito claro: respeito profundamente quem enfrenta conflitos internos, quem não se identifica com o próprio sexo biológico e busca viver sua verdade da forma mais digna possível. Não acredito que pessoas devam ser humilhadas, perseguidas ou tratadas com crueldade por serem diferentes.

Mas também acredito que mulheres têm o direito de expressar suas preocupações sem serem imediatamente chamadas de preconceituosas.

Como avó de meninas e meninos, eu penso diariamente sobre segurança, privacidade e proteção. O mundo em que vivemos infelizmente está cheio de pessoas mal-intencionadas, oportunistas e predadores que se aproveitam de qualquer brecha para agir. E negar esse medo que muitas mulheres sentem não ajuda o debate — apenas silencia quem também merece ser ouvida.

Minha preocupação nunca foi contra pessoas trans. Minha preocupação é com a segurança feminina em espaços íntimos e vulneráveis, como banheiros, vestiários e locais reservados às mulheres e crianças.

Talvez esteja na hora de buscarmos soluções equilibradas e humanas. Em vez de transformar tudo em confronto, por que não ampliar a existência de banheiros individuais ou espaços unissex para quem se sentir mais confortável? Um ambiente onde ninguém precise se sentir constrangido, ameaçado ou excluído.

Respeitar pessoas trans não deveria significar ignorar as preocupações das mulheres. E defender mulheres também não deveria significar atacar pessoas trans.

A convivência só será possível quando entendermos que ouvir o outro não é concordar com tudo — é reconhecer que todos merecem dignidade, segurança e respeito.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A incoerência de quem critica o sistema, mas vive dele...

Charge El País América. 

Vivemos tempos curiosos. Tempos em que muitos se dizem defensores do povo, da igualdade e da justiça social, mas não abrem mão das mordomias proporcionadas justamente pelo sistema que tanto criticam. 

É interessante observar como determinados grupos apontam o dedo para quem produz, trabalha, empreende e sustenta a economia, enquanto desfrutam confortavelmente dos frutos desse mesmo esforço.

Há uma narrativa repetida à exaustão de que a direita não possui projetos, não possui propostas ou preocupação social. Entretanto, quando analisamos determinados períodos recentes da história do país, encontramos um cenário diferente daquele pintado pelos discursos ideológicos.

 Houve momentos em que o Brasil apresentou crescimento econômico, recuperação de indicadores, redução de algumas dívidas e maior sensação de estabilidade. E isso não pode simplesmente ser apagado porque contraria certas narrativas políticas.

Por outro lado, também é impossível ignorar o sentimento crescente da população diante da perda do poder de compra, do aumento do endividamento, da insegurança econômica e da sensação de retrocesso em áreas que já pareciam encaminhadas. O cidadão comum sente isso no mercado, nas contas do mês, nos impostos e na dificuldade de manter uma vida minimamente confortável.

O mais preocupante, porém, talvez não seja a divergência política em si. Democracia pressupõe pensamentos diferentes. O que entristece é perceber pessoas inteligentes, cultas e esclarecidas defendendo cegamente ideologias, mesmo quando elas contradizem princípios básicos de coerência, ética e responsabilidade. Em muitos casos, o discurso deixa de ser sobre justiça e passa a ser sobre conveniência.

Existe uma diferença enorme entre defender pautas sociais e defender privilégios seletivos. Existe uma diferença entre lutar por igualdade e justificar favorecimentos apenas porque beneficiam determinados grupos ou interesses políticos.

Nenhum espectro político está livre de erros. A direita também falha quando abandona seus princípios, quando se distancia das pessoas ou quando transforma política em idolatria. Mas talvez a grande diferença esteja na disposição de reconhecer erros e cobrar coerência — inclusive daqueles que estão “do próprio lado”.

O Brasil precisa menos de torcidas organizadas e mais de maturidade política. Precisa de cidadãos capazes de questionar, analisar resultados concretos e exigir responsabilidade de qualquer governo, independentemente de bandeiras ideológicas.

Porque quando a ideologia se torna mais importante que a verdade, perde-se a capacidade de enxergar a realidade. E um país que deixa de encarar a realidade está condenado a repetir seus próprios erros.