Vivemos tempos curiosos. Tempos em que muitos se dizem defensores do povo, da igualdade e da justiça social, mas não abrem mão das mordomias proporcionadas justamente pelo sistema que tanto criticam.
É interessante observar como determinados grupos apontam o dedo para quem produz, trabalha, empreende e sustenta a economia, enquanto desfrutam confortavelmente dos frutos desse mesmo esforço.
Há uma narrativa repetida à exaustão de que a direita não possui projetos, não possui propostas ou preocupação social. Entretanto, quando analisamos determinados períodos recentes da história do país, encontramos um cenário diferente daquele pintado pelos discursos ideológicos.
Houve momentos em que o Brasil apresentou crescimento econômico, recuperação de indicadores, redução de algumas dívidas e maior sensação de estabilidade. E isso não pode simplesmente ser apagado porque contraria certas narrativas políticas.
Por outro lado, também é impossível ignorar o sentimento crescente da população diante da perda do poder de compra, do aumento do endividamento, da insegurança econômica e da sensação de retrocesso em áreas que já pareciam encaminhadas. O cidadão comum sente isso no mercado, nas contas do mês, nos impostos e na dificuldade de manter uma vida minimamente confortável.
O mais preocupante, porém, talvez não seja a divergência política em si. Democracia pressupõe pensamentos diferentes. O que entristece é perceber pessoas inteligentes, cultas e esclarecidas defendendo cegamente ideologias, mesmo quando elas contradizem princípios básicos de coerência, ética e responsabilidade. Em muitos casos, o discurso deixa de ser sobre justiça e passa a ser sobre conveniência.
Existe uma diferença enorme entre defender pautas sociais e defender privilégios seletivos. Existe uma diferença entre lutar por igualdade e justificar favorecimentos apenas porque beneficiam determinados grupos ou interesses políticos.
Nenhum espectro político está livre de erros. A direita também falha quando abandona seus princípios, quando se distancia das pessoas ou quando transforma política em idolatria. Mas talvez a grande diferença esteja na disposição de reconhecer erros e cobrar coerência — inclusive daqueles que estão “do próprio lado”.
O Brasil precisa menos de torcidas organizadas e mais de maturidade política. Precisa de cidadãos capazes de questionar, analisar resultados concretos e exigir responsabilidade de qualquer governo, independentemente de bandeiras ideológicas.
Porque quando a ideologia se torna mais importante que a verdade, perde-se a capacidade de enxergar a realidade. E um país que deixa de encarar a realidade está condenado a repetir seus próprios erros.
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