quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Quando o dia muda o rumo...

Ontem foi dia de quebrar o galho do filho e ficar com o neto em casa enquanto ele saía para fazer um serviço.

Sabe aquelas mudanças de planos que chegam de surpresa e modificam completamente o nosso dia? E que, mesmo sem termos sido planejadas, acabam modificando tudo da melhor maneira possível?

Pois foi assim.

De repente, eu e meu marido ganhamos uma manhã na praia com o nosso neto. O dia estava nublado, o friozinho aparecia de vez em quando, mas para uma criança não existe tempo ruim quando existe um parquinho pela frente.

Depois veio o mercado. Depois, a casa. E então vieram as cabaninhas, o supermercado imaginário, as brincadeiras inventadas na hora e tudo aquilo que o lúdico permite quando uma criança está por perto.

Foi um dia cheio. Cheio de função, de movimento, de risadas, de pequenas descobertas e daquela oportunidade maravilhosa de olhar a vida através dos olhos de uma criança.

E querem saber? É cansativo, sim. Principalmente quando o frio chega e a fibromialgia resolve lembrar que mora comigo.

Mas existe uma coisa curiosa: quando o coração está cheio de alegria, quando a alma está ocupada por sentimentos bons, as dores continuam ali, caminhando ao nosso lado... mas parecem perder a força de atrapalhar o caminho.

Elas não desaparecem. Não deixam de doer.

Mas não interferem no prazer.

Porque há dias em que a vida muda nossos planos apenas para nos lembrar que ainda existem muitas alegrias esperando para acontecer — às vezes numa praia nublada, numa cabaninha improvisada ou num pequeno supermercado de brincadeira.

E, no fim do dia, a gente percebe que não estava apenas quebrando o galho de alguém.

Estava, sem saber, ganhando um presente. ❤️

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Vivendo o curso normal da vida...

No fim de semana, tivemos um daqueles encontros que fazem bem à alma. Estávamos em Areal, reunidos: os Olivieris e aqueles que chegaram aos Olivieris pelo caminho do amor, da amizade, dos casamentos, da vida.

Em determinado momento, meu filho olhou para mim, referindo-se à minha neta, que já está entrando naquela fase entre os dez e os onze anos, e disse:

— Tá vendo, mãe? Olha só... Agora ela não quer mais saber da vovó, não quer mais perder tempo com a vovó nem com o papai. Você ainda prefere se sacrificar para comprar uma bebê reborn nova, o vestido de caipira mais caro?

E eu sorri.

Mas não sorri porque não houvesse verdade no que ele dizia. Sorri porque havia muito mais preocupação naquele comentário do que realmente preocupação comigo. Havia ali a dorzinha de um pai percebendo que a filha está crescendo.

Eu entendo.

Também já estive naquele lugar.

Houve um tempo em que eu era apenas mãe. E, como toda mãe, também acompanhei meus filhos deixando, pouco a pouco, algumas coisas para trás. A infância vai dando lugar a outras vontades, outros interesses, outras companhias. E nós, adultos, às vezes confundimos esse movimento natural com afastamento.

Quando eles preferem os amigos, pensamos que não querem mais estar conosco.

Quando começam a fazer escolhas próprias, sentimos que estamos perdendo espaço.

Quando já não querem brincar como antes, quase perguntamos, em silêncio: “Em que momento você deixou de precisar tanto de mim?”

Mas a maturidade foi me ensinando, especialmente através dos netos, que crescer não é deixar de amar.

É apenas crescer.

É descobrir o mundo para além do colo da mãe, da mão do pai, da brincadeira com a avó.

É começar a fazer escolhas. Ter preferências. Ser seletivo. Querer aquilo que os adultos, muitas vezes, não entendem. Uma bebê reborn. Um vestido de caipira mais bonito. Uma tarde com os amigos. Um mundo que, aos poucos, começa a ser deles.

E nós precisamos aprender a não transformar cada passo de independência em uma sensação de abandono.

Porque talvez não estejamos perdendo espaço.

Talvez estejamos apenas precisando aprender a ocupar um lugar diferente.

Hoje eu entendo que o meu amadurecimento protege os meus netos. Protege-os da culpa de crescer. Da obrigação de permanecerem pequenos para que os adultos não sofram. Uma criança precisa poder mudar, escolher, experimentar, afastar-se um pouquinho e voltar, sem sentir que está machucando quem a ama.

Mas o meu amadurecimento também protege a mim.

Porque, quando compreendemos o curso natural da vida, não enxergamos todas as mudanças como perdas.

Aquela menina que hoje já não quer passar tanto tempo brincando com a vovó não deixou de amar a vovó.

Ela está apenas crescendo.

E o meu filho, naquele instante, talvez ainda estivesse aprendendo a ser pai de uma menina que já não é tão menina.

Eu olhei para ele e sorri porque hoje sei de uma coisa que talvez só o tempo ensine:

Não devemos tentar impedir que eles cresçam para que continuem precisando de nós.

Precisamos crescer junto com eles, para que, mesmo quando não precisarem mais de nós como antes, continuem querendo voltar para nós.

Porque o colo muda.

As conversas mudam.

As brincadeiras mudam.

O tempo junto muda.

Mas o amor...

Ah, o amor não precisa diminuir.

A vida apenas segue o seu curso.

E nós, que amamos, precisamos aprender a acompanhá-la. ❤️


Explicando felicidade...

Um fim de semana para guardar no coração

Este fim de semana foi especial...

Foi encontro com a família. Encontro com Deus. Encontro com a natureza. Foi, acima de tudo, um encontro com aquela parte de nós mesmos que, muitas vezes, a correria da vida acaba deixando esquecida.

Em alguns momentos, eu olhava para mim, para o meu marido, para minha cunhada Maria Augusta e para o meu cunhado Fernando e, por alguns instantes, conseguia enxergar dentro de nós aqueles quatro jovens de quarenta anos atrás. Era impossível não recordar tudo o que vivemos juntos, tudo o que atravessamos, tudo o que o tempo levou e tudo o que, apesar do tempo, permaneceu.

Maria Augusta e Fernando foram padrinhos de um filho meu que hoje está no céu. Eles também conheceram, à sua maneira, a dor de ver um filho daquela família partir. E, ainda assim, este não foi um fim de semana de tristeza. Pelo contrário. Foi um fim de semana de paz, de leveza, de risadas, de memórias e de uma tranquilidade que há muito tempo eu não sentia.

Havia uma vibe boa no ar. Daquelas que a gente não sabe explicar, apenas sente. E eu senti. Senti a presença de Deus, o abraço da natureza e o conforto insubstituível de estar perto de quem faz parte da nossa história.

Espero, de coração, que possamos repetir mais vezes momentos assim. Com o Lourencinho, a Luana, as crianças, com a Paola vindo da Noruega com o marido e os filhos... Que a vida nos conceda mais encontros, mais mesas compartilhadas, mais abraços e mais tempo juntos.

Porque, no fim das contas, eu acredito que a vida só encontra seu verdadeiro sentido quando exercemos o sentido da família.

E talvez seja isso que eu tenha vivido neste fim de semana: a certeza de que, apesar do tempo, das perdas e das mudanças que a vida impõe, ainda existem lugares onde a alma descansa.

E um desses lugares é, sem dúvida, junto da família.

As músicas e os amores abafados no fundo da alma...

Há músicas que não foram feitas para tocar no rádio. Elas vivem dentro de nós.

Basta ouvir os primeiros acordes e, sem pedir licença, elas abrem portas que jurávamos trancadas. Trazem de volta um perfume, um abraço, um olhar, uma rua, uma tarde de chuva, um amor que nunca encontrou coragem para florescer.

Existem amores que não terminam. Apenas se calam.
Ficam abafados sob as responsabilidades da vida, escondidos atrás das escolhas que fizemos, das renúncias que aceitamos e dos caminhos que seguimos. Não morrem. Apenas aprendem a respirar bem devagar, no fundo da alma.

E, então, um dia qualquer, uma música toca.
De repente, o tempo deixa de existir. O coração reconhece aquilo que a razão passou anos tentando esquecer. É como reencontrar uma parte de nós que permaneceu intacta, esperando apenas o som certo para despertar.

Talvez seja por isso que as músicas tenham tanto poder. Elas não nos fazem lembrar apenas das pessoas. Elas nos devolvem quem éramos quando as amávamos.

E descobrimos que algumas melodias são, na verdade, cartas que a vida escreveu para a nossa memória. Cartas que jamais foram rasgadas, apenas guardadas na gaveta mais silenciosa do coração.

Porque há músicas que acabam.
Mas existem amores que continuam vivendo, abafados e guardados no fundo da alma, esperando apenas uma canção para voltar a respirar.

QUANDO O ONTEM AINDA ECOA...🌪🌬🌀



Os ventos extremos de ontem provocaram um medo devastador. Um medo que não nasceu apenas da força da natureza, mas da consciência da nossa própria impotência diante dela.

Enquanto ouvia os avisos e as recomendações, uma sucessão de perguntas tomou conta de mim. Será que as janelas vão estilhaçar? Será que vou presenciar uma tragédia? Como vou proteger, sozinha, as crianças e os animais, se alguma coisa realmente acontecer?

Foi assustador.

Mas, passada a tensão, ficou uma constatação ainda mais forte: nós, como povo, ainda não estamos preparados para enfrentar eventos como esse.

Não podemos dizer que faltaram alertas. A Defesa Civil e os órgãos de monitoramento cumpriram o seu papel. As informações chegaram, os avisos foram feitos, as orientações foram divulgadas.

O que continua faltando é um planejamento permanente. Falta uma estrutura que prepare as cidades, fortaleça os municípios, integre os estados e transforme a prevenção em prioridade. Não para combater a natureza — porque isso jamais será possível —, mas para minimizar os danos, proteger vidas e reduzir o sofrimento.

Os acontecimentos de ontem me fizeram pensar em como a vida muda de direção em questão de segundos. Uma rajada de vento foi suficiente para nos lembrar de que não controlamos tudo. Basta um instante para que nossas certezas balancem junto com as árvores.

Talvez o maior desafio não seja impedir que as tempestades aconteçam, mas decidir o que elas deixarão em nós quando passarem.

A dor pode endurecer o coração ou amadurecer a alma. O medo pode nos paralisar ou nos ensinar a valorizar ainda mais a prevenção, a solidariedade e cada amanhecer.

Ontem passou. As consequências, talvez, ainda permaneçam. Mas hoje continua sendo um convite para aprender. Porque, quando a natureza fala, ela nos lembra, com toda a sua força, de algo que muitas vezes esquecemos: somos profundamente frágeis. E reconhecer essa fragilidade talvez seja o primeiro passo para construirmos uma sociedade mais preparada, mais responsável e mais humana.


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

EM QUE MOMENTO NÓS NOS PERDEMOS?


Em que momento nós nos perdemos?

Há imagens que a gente assiste e gostaria de poder esquecer.

Mas algumas imagens não deveriam ser esquecidas.

Um pai caminhando tranquilamente com a filha pequena, aparentemente a caminho da escola. Uma criança ao seu lado, seguindo a rotina de qualquer manhã. Até que um carro se aproxima e, segundo o que mostram as imagens, homens atiram contra ele sem demonstrar qualquer preocupação com a presença daquela criança.

O motivo que levou à execução não é o que quero discutir aqui.

Porque existe algo ainda mais assustador do que tentar compreender por que alguém decidiu matar outro ser humano: é perceber que, naquele momento, aparentemente não houve sequer a preocupação de poupar uma criança do horror.

E isso me faz pensar que alguma coisa muito profunda se rompeu.

Durante muito tempo, mesmo no universo brutal da criminalidade, existiam limites que pareciam ser reconhecidos. Crianças, idosos, famílias... havia, ou pelo menos se imaginava haver, determinados códigos que não deveriam ser ultrapassados.

Hoje, até isso parece estar desaparecendo.

A vida humana está sendo banalizada.

A morte virou uma cena cotidiana. Um corpo no chão, tiros disparados em plena rua, pessoas correndo, alguém filmando, alguém comentando nas redes sociais... e, pouco depois, seguimos para o próximo assunto.

Como se a vida tivesse perdido o seu valor.

Como se matar fosse apenas mais um acontecimento.

E o que mais me assusta é que não estamos falando apenas de criminosos cada vez mais violentos. Estamos falando de uma sociedade que está sendo obrigada a conviver diariamente com o medo, com a insegurança e com a sensação de que ninguém está realmente protegido.

Hoje é um pai levando a filha para a escola.

Amanhã pode ser alguém indo trabalhar.

Uma mãe voltando para casa.

Um idoso atravessando a rua.

Uma criança brincando na calçada.

Quem será o próximo?

E não estou falando de uma cidade específica. O problema ultrapassou fronteiras. É um sentimento que alcança diferentes lugares deste país.

E nós vamos ficando cansados.

Cansados de assistir.

Cansados de sentir medo.

Cansados de ouvir histórias de pessoas assassinadas, assaltadas, sequestradas, vítimas de uma violência que parece não encontrar mais freios.

Cansados de precisar calcular caminhos, horários, lugares e riscos.

Cansados de tentar proteger quem amamos.

E talvez o mais perverso de tudo seja isso: a violência não mata apenas pessoas. Ela vai matando, aos poucos, a nossa sensação de liberdade.

A gente começa a ter medo de sair.

Medo de voltar.

Medo de estar no lugar errado, na hora errada.

Medo por nossos filhos, nossos netos, nossos pais.

E como continuar vivendo assim sem adoecer por dentro?

Como não sentir angústia diante de um mundo em que uma criança pode presenciar o assassinato do próprio pai simplesmente porque estava caminhando ao lado dele?

Eu me pergunto, sinceramente:

Em que momento nós nos perdemos enquanto humanidade?

Em que momento a vida passou a valer tão pouco?

Em que momento a crueldade deixou de chocar?

Em que momento uma criança deixou de ser um limite?

E, principalmente, até onde nós vamos?

Eu não tenho uma resposta.

Mas ainda quero acreditar que existe salvação.

Porque, se eu deixar de acreditar nisso, então a violência terá conseguido levar mais do que vidas. Terá levado também a nossa esperança.

Talvez a salvação comece justamente quando a gente se recusa a considerar o absurdo normal.

Quando uma morte ainda nos revolta.

Quando uma criança ainda nos faz parar e pensar.

Quando nos recusamos a dizer simplesmente: “É assim mesmo.”

Não. Não deveria ser assim.

Uma sociedade que perde a capacidade de se indignar diante da morte já começou a morrer também.

Por isso, diante dessas imagens, eu não quero apenas sentir medo.

Quero fazer a pergunta que talvez todos nós precisemos fazer:

Que país estamos deixando para nossas crianças?

E, se ainda houver salvação — e eu quero acreditar que há —, talvez ela comece quando decidirmos que a vida humana precisa voltar a ter valor.

Toda vida.

Sem exceção.

Porque quando uma criança deixa de ser um limite para a violência, não é apenas aquela família que está em perigo.

Somos todos nós.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Dor e cansaço...

Só um instantinho

Há dias em que a vida parece ficar sem inspiração.

Não porque tenham acabado as histórias, os sentimentos ou as palavras. Mas porque o corpo cansa. E quando o corpo cansa demais, até a alma parece pedir silêncio.

Ultimamente tenho me sentido assim.

As dores da artrite, da fibromialgia, esse cansaço que parece não ter fim… há momentos em que chega a ser cruel. E, ainda assim, a gente levanta, segue, conversa, sorri, responde às pessoas e tenta manter as aparências.

Porque, de alguma maneira, aprendemos que não podemos reclamar demais.

A dor incomoda.
O cansaço incomoda.
A tristeza incomoda.

E ninguém quer ser aquela pessoa que está sempre dizendo que não está bem.

Então a gente disfarça.

Reclama um pouquinho, só para não parecer que está tudo bem… mas não reclama demais, porque também não quer pesar na vida de ninguém.

Só que existe um preço para esse silêncio.

Esse cansaço tem roubado minhas horas de sono. E, junto com elas, tem levado um pouco da minha inspiração.

Eu, que tantas vezes acordei querendo escrever, querendo colocar palavras no mundo, querendo compartilhar alguma coisa logo pela manhã, tenho encontrado dias em que simplesmente não tenho forças.

E talvez eu precise aceitar isso.

Aceitar que existem fases em que a gente não produz, não cria, não floresce.

Apenas atravessa.

Mas eu também sei que a vida é feita de ciclos. E aquilo que hoje parece interminável, amanhã será apenas uma lembrança de um período difícil.

Eu vou voltar.

Vai voltar a vontade de escrever pela manhã.
Vai voltar a alegria de encontrar uma palavra e transformá-la em sentimento.
Vai voltar aquela mulher que acorda querendo conversar com o mundo através das palavras.

Por enquanto, talvez eu só precise me permitir existir assim: cansada, dolorida, menos inspirada… mas ainda aqui.

E me lembro de uma frase que li em uma carta psicografada, atribuída a um espírito que dizia à sua mãezinha:

“Isso é só um instante. É só um instantinho.”

É nisso que eu quero acreditar hoje.

Porque a dor pode ser grande.
O cansaço pode ser cruel.
Mas nenhum instante é eterno.

E esse também vai passar.

Depois, eu volto a escrever.

E, quem sabe, descubro que até esse silêncio tinha alguma coisa para me ensinar.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

A política "do faça o que eu digo"...


Eu gosto da democracia.

Gosto da ideia de que um país possa ter esquerda, direita, centro, extremos, moderados, conservadores, progressistas e até aqueles que mudam de opinião no meio do caminho.

O que eu não gosto é de viver em um país onde parece que, para alguns, democracia só é bonita quando o outro concorda.

E talvez seja aí que esteja uma das nossas maiores doenças políticas: a incoerência.

Houve um tempo em que o Brasil tinha apenas dois partidos oficiais: ARENA e MDB. Depois veio a abertura, o pluripartidarismo, e os partidos começaram a se multiplicar. Multiplicaram-se tanto que, às vezes, tenho a impressão de que fizeram como coelho: ninguém sabe mais exatamente de onde veio cada um, mas continuam aparecendo.

O problema não é existirem muitos partidos.

O problema é quando existem muitos partidos e poucas convicções.

Porque política deveria ser, antes de qualquer coisa, uma questão de princípios. Mas, em algum momento, princípios começaram a ser negociados em reuniões fechadas, em troca de cargos, verbas, alianças e conveniências.

E isso não é exclusividade de esquerda ou de direita.

Mas existe uma coisa que me incomoda profundamente quando vem de quem passou anos fazendo da defesa da liberdade uma bandeira.

É difícil ouvir alguém falar em nome dos pobres enquanto vive cercado de privilégios.

É difícil ouvir alguém defender as minorias enquanto trata como inimigo qualquer pessoa que pense diferente.

É difícil ouvir discursos inflamados sobre democracia quando a liberdade de expressão parece ser considerada maravilhosa — desde que a expressão seja a que agrada.

Aí eu me lembro daquela velha frase, tão simples e tão atual:

“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.”

E talvez seja exatamente isso que esteja afastando tanta gente da política.

Não é necessariamente a esquerda.

Não é necessariamente a direita.

É a sensação de que existe uma classe política que descobriu como falar bonito para o povo enquanto continua vivendo muito confortavelmente às custas dele.

E tem mais.

Eu não quero um político que pense como eu.

Quero um político que tenha coragem de pensar diferente e, ainda assim, respeite o meu direito de discordar.

Quero poder criticar um governo sem ser chamada de inimiga.

Quero poder elogiar uma medida de esquerda sem ser considerada de esquerda.

Quero poder elogiar uma medida de direita sem ser considerada de direita.

Quero continuar sendo apenas uma cidadã que pensa.

Porque foi para isso que lutamos tanto pela democracia: para que ninguém tivesse o monopólio da verdade.

A liberdade de expressão não pode ser uma concessão do poder.

E democracia não pode ser um prêmio concedido somente a quem se comporta de acordo com a cartilha de quem está mandando.

Se eu posso falar apenas aquilo que não incomoda, então eu não sou livre.

Se você pode falar apenas aquilo que o seu grupo aprova, você também não é.

E talvez esteja na hora de lembrarmos de uma coisa muito simples:

Democracia não é o direito de ouvir apenas aquilo que queremos.

É o direito de ouvir o que não queremos, responder, discordar, argumentar e continuar vivendo juntos.

Eu não tenho medo de uma esquerda forte.

Não tenho medo de uma direita forte.

Tenho medo de qualquer poder forte demais e de uma sociedade fraca demais para questioná-lo.

Porque quando o cidadão deixa de poder perguntar “por quê?”, o poder começa a acreditar que não precisa mais responder.

E aí, meus amigos, a coisa fica perigosa.

Muito perigosa.

Não importa a cor da bandeira.
Quando o poder se sente dono da verdade, a liberdade começa a perder a sua.

BRUNO, MEU PEQUENO GUERREIRO ...

Bieliver



Hoje o meu netinho Bruno completa 5 anos.

Ele chegou ao mundo em um tempo estranho, difícil, assustador. Nasceu em meio a uma pandemia, quando todos nós aprendíamos a conviver com o medo e com as incertezas. E, quando tinha apenas dois meses de vida, quase precisou partir por causa de uma bronquiolite.

Mas esse menino já chegou mostrando a que veio.

Bruno é um guerreiro.

Venceu os primeiros obstáculos da vida e cresceu forte, esperto, alegre, carinhoso e cheio de personalidade. Uma verdadeira espoleta — igualzinho ao pai! 😂

Ele recebeu o nome do tio, e é impossível não perceber algumas pequenas semelhanças que parecem atravessar o tempo.

Tem a inteligência, a curiosidade, o gosto pelos jogos, essa paixão por música... aliás,  ama Believer do Imagine Dragons, que me faz sorrir quando vejo o quanto ele gosta… 🎶 E tem esse jeitinho de mergulhar nas coisas de que gosta, como se o mundo inteiro pudesse caber dentro daquela cabecinha inquieta.

Mas existe uma coisa que é só dele.

O meu neto Bruno é o meu neto Bruno.

É aquele menino que me ama com uma intensidade que me desmonta. Que me admira, que me olha como se eu fosse muito mais importante do que realmente sou. Que me enche de beijos, de abraços, de perguntas, de risadas e de vida.

Ele não sabe, talvez ainda não tenha idade para compreender, mas é um dos grandes presentes que a vida me deu.

E talvez seja justamente isso que eu mais quero celebrar hoje: a vida.

A vida desse menino que chegou tão pequenininho, atravessou seus primeiros desafios e hoje está aqui, completando cinco anos, fazendo bagunça, jogando seus joguinhos, ouvindo suas músicas e espalhando alegria por onde passa.

Meu pequeno Bruno, que você cresça sabendo que é profundamente amado.

Que nunca lhe faltem saúde, coragem, alegria, curiosidade e sonhos.

Que a vida seja generosa com você.

E que você continue sendo essa criança luminosa, espoleta, inteligente e amorosa que faz a nossa família sorrir.

Você ganhou o nome de alguém muito amado por mim.

Mas você ganhou também o direito de escrever a sua própria história.

E eu estarei aqui, meu amor, para assistir a cada capítulo dela — torcendo, vibrando, cuidando, rindo das suas travessuras e agradecendo a Deus pelo privilégio de ser sua avó.

Feliz 5 anos, meu Bruno! 💙

Que Deus abençoe seus passos e conserve sempre essa luz que existe em você.

A vovó te ama mais do que as palavras conseguem dizer.
Você é alegria na minha vida. 💙🎂🎈

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

As três versões da Márcia...


Tenho pensado que talvez existam três versões de uma pessoa.

A primeira é aquela que os outros enxergam.

A segunda é aquela que somos quando ninguém está olhando.

E a terceira é aquela que gostaríamos de nos tornar.

E talvez amadurecer seja justamente ter coragem de colocar as três diante do espelho e perguntar: onde elas se encontram?

Como as pessoas me veem?

Algumas me veem como uma mulher boazinha, religiosa, sensível. Depois da morte do Bruno, talvez algumas tenham passado a me enxergar principalmente através da piedade. A mulher que perdeu um filho. A mãe que luta. A mulher que sofreu.

Alguns me veem como forte. Corajosa. Uma espécie de Fênix, dessas que parecem ter aprendido a renascer das próprias cinzas.

Outros, certamente, me acham mandona. Autoritária. Intensa demais. Apaixonada demais pelas coisas que defendo.

E provavelmente todos estão, de alguma maneira, certos.

Porque sou tudo isso.

Tenho uma religiosidade que faz parte de mim, mas não quero que a minha fé seja confundida com fragilidade. Sou sensível, mas sensibilidade nunca foi sinônimo de fraqueza.

Também sou forte. Mas não sou forte o tempo inteiro.

Sou uma mulher que chora, que sente medo, que se decepciona, que se cansa. E também sou aquela que, depois de tudo, levanta.

Sou apaixonada.

E talvez essa seja uma das características que mais definem quem eu sou.

Eu me apaixono por pessoas, por músicas, por livros, por ideias, por causas. Apaixono-me por aquilo que considero justo. E, quando alguma coisa toca profundamente aquilo em que acredito, eu não sei defendê-la pela metade.

Defendo com veemência.

E aí talvez esteja uma das minhas maiores qualidades e também um dos meus maiores defeitos.

Porque a mesma veemência que me faz lutar por aquilo em que acredito pode fazer com que algumas pessoas me enxerguem como autoritária.

Talvez eu seja.

Ou talvez, algumas vezes, eu precise aprender que ter convicção não significa necessariamente precisar convencer.

Essa é uma das coisas que ainda estou aprendendo.

Eu sou uma pessoa extremamente caseira.

Não gosto de aglomerações. Não gosto de shopping, de balada, de conversa vazia, de gente falando no meu ouvido o tempo inteiro. Não preciso estar cercada de pessoas para me sentir viva.

Eu gosto da minha casa.

Gosto do silêncio.

Gosto de um livro, de uma boa peça de teatro, de música — e música eu amo de uma maneira quase inexplicável.

Gosto da minha própria companhia.

E existe uma diferença enorme entre ser uma pessoa solitária e ser uma pessoa que escolheu a solitude.

Eu não sou sozinha porque ninguém me quer por perto.

Eu sou, muitas vezes, sozinha porque gosto.

Gosto da liberdade de não precisar falar o tempo inteiro.

Gosto de poder pensar.

Gosto de poder ficar quieta.

Gosto de não precisar representar alegria quando não estou alegre, nem disposição quando quero simplesmente ficar no meu canto.

Eu gosto de liberdade.

Talvez seja uma das coisas que mais amo na vida.

E não estou falando apenas da liberdade de ir e vir.

Falo da liberdade de decidir.

Da liberdade de pensar.

Da liberdade de escolher.

Da liberdade de ser.

Não gosto que tentem me empurrar para dentro da vida que outra pessoa considera ideal.

E talvez por isso eu também procure não fazer com os outros aquilo que não gostaria que fizessem comigo.

Eu quero que cada pessoa tenha o direito de ser quem é.

Como eu quero ter o direito de ser quem sou.

Sou fiel.

À minha família.

Aos meus amigos.

Àqueles que amo.

À minha fé.

E, principalmente, às minhas convicções.

Mas existe uma coisa que talvez eu precise observar nessa fidelidade: às vezes, ser fiel às minhas convicções pode me fazer permanecer tempo demais em algumas batalhas.

Talvez nem toda batalha precise ser vencida.

Algumas precisam apenas ser abandonadas.

Eu sou extremamente dedicada à minha família.

Para mim, família é uma das coisas mais importantes deste mundo.

E quando amo, eu me dedico.

Talvez até demais.

Talvez esse “demais” também seja parte do problema.

Porque pessoas muito dedicadas podem esperar dos outros a mesma intensidade que oferecem.

E nem todo mundo ama na mesma medida.

Nem todo mundo demonstra.

Nem todo mundo compreende.

Nem todo mundo tem a mesma capacidade de entrega.

Isso não significa necessariamente que não amem.

Significa apenas que são diferentes.

E eu ainda estou aprendendo a não transformar diferença em decepção.

Também sou extremamente justa.

Pelo menos é assim que me reconheço.

Procuro ouvir o outro lado. Procuro me colocar no lugar de quem está diante de mim. Tento compreender antes de julgar.

E existe uma ironia nisso.

Às vezes, justamente porque procuro compreender demais, algumas pessoas podem achar que estou sendo falsa.

Como se quem conseguisse enxergar vários lados de uma questão não tivesse opinião própria.

Tenho.

Tenho muitas.

Mas compreender o outro não significa concordar com ele.

Essa talvez seja uma das maiores confusões que as pessoas fazem a meu respeito.

Eu posso entender você e continuar discordando de você.

Posso reconhecer sua dor e ainda assim não aceitar sua atitude.

Posso enxergar seus motivos sem justificar suas escolhas.

Isso não é falsidade.

Isso é tentativa de justiça.

E, talvez, as pessoas que não conseguem compreender isso acabem perdendo uma das melhores coisas que existem em mim: a minha devoção.

Porque eu sou devota.

Não apenas no sentido religioso.

Sou devota das pessoas que amo, das causas em que acredito, das relações que considero verdadeiras.

Quando alguém entra verdadeiramente no meu coração, eu não ofereço uma presença superficial.

Eu ofereço dedicação.

Mas existe um preço em ser assim.

Pessoas intensas podem ser difíceis.

Pessoas que sentem profundamente podem cobrar profundidade.

Pessoas que defendem muito aquilo em que acreditam podem parecer inflexíveis.

Pessoas que amam muito podem, algumas vezes, sufocar sem perceber.

E é aí que entra a terceira Márcia.

A Márcia que eu gostaria de ser.

Não quero ser menos intensa.

Não quero ser menos apaixonada.

Não quero perder minha fé, minha coragem, minha capacidade de lutar, minha lealdade ou meu amor pela família.

Mas gostaria de ser mais leve.

Gostaria de aprender a escolher melhor minhas batalhas.

Gostaria de saber quando falar e quando o silêncio é mais sábio.

Gostaria de continuar defendendo minhas convicções sem transformar toda discordância em enfrentamento.

Gostaria de compreender que algumas pessoas simplesmente não terão a mesma entrega que eu — e que isso não precisa diminuir o valor delas nem o meu.

Gostaria de ser uma mulher cada vez mais livre, mas também cada vez mais tranquila.

Porque talvez liberdade não seja apenas poder fazer o que quero.

Talvez liberdade também seja não precisar provar o tempo inteiro que tenho razão.

E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas do amadurecimento.

Descobrir que não preciso abandonar quem sou para melhorar quem sou.

Posso continuar sendo Márcia.

A mulher da fé.

A mãe.

A amiga.

A apaixonada.

A intensa.

A justa.

A que gosta de silêncio.

A que ama música.

A que prefere um livro a uma multidão.

A que luta.

A que se revolta.

A que se recolhe.

A que cai.

A que chora.

A que renasce.

A Fênix.

Mas posso ser uma Fênix diferente.

Uma que não precise esperar o incêndio para descobrir que consegue voar.

E talvez, no fim das contas, o bom e o ruim de ser Márcia estejam exatamente no mesmo lugar.

Eu sinto muito.

Amo muito.

Defendo muito.

Vivo muito.

E, às vezes, tudo isso é minha força.

Às vezes, tudo isso é meu excesso.

Mas é meu.

E se existe uma coisa que eu não quero perder no processo de me tornar uma mulher melhor, é justamente aquilo que me torna reconhecível para mim mesma.

Eu não quero deixar de ser Márcia.

Quero apenas aprender a ser uma versão de Márcia que me dê mais paz.

E você? Quem é você? Há paz no seu "eu sou"?