Dentro de mim moram várias Márcias.
E cada uma delas, no seu tempo, foi responsável por caminhar por esse difícil, doloroso e, ao mesmo tempo, tão necessário trajeto da evolução.
Meu Deus... quantas dores eu passei.
Às vezes eu paro e penso que mal tive tempo de ser criança. Tão pequena, precisei observar, compreender e atravessar situações que talvez fossem grandes demais para os olhos de uma menina.
Mas, dentro daquela criança, já havia uma sementinha...
A sementinha do divino.
Do saber.
Da fé.
Da presença do Pai Maior.
E talvez tenha sido ela que, mesmo sem que eu compreendesse, me sustentou tantas vezes.
Porque, por mais difícil que fosse a caminhada, eu instintivamente me recusei a me revoltar. Recusei-me a desistir.
Eu caminhei.
Trafeguei por estradas que muitas vezes não escolhi. Atravessei caminhos tortuosos. Em alguns momentos, quase caí... e em outros, caí mesmo.
Mas eu sempre levantei.
Sempre.
Renascendo das minhas próprias cinzas, recolhendo os pedaços, juntando os caquinhos e seguindo adiante.
E fui crescendo...
Fui aprendendo.
Fui amadurecendo.
Fui compreendendo que algumas dores não chegam para nos destruir, mas para nos transformar.
E, de todas essas Márcias, nasceu essa que hoje, todos os dias, conversa com vocês.
Não me sinto vaidosa por dominar alguma área da vida. Não é isso que me faz sentir orgulho.
O que me faz feliz, verdadeiramente feliz, é saber que, apesar de tudo o que vivi, eu não permiti que a dor arrancasse de mim a capacidade de amar.
Ao contrário...
Se existe alguma coisa que considero uma das minhas maiores conquistas, é saber que me tornei um ser capaz de semear o bem no coração de alguém.
Talvez eu não consiga mudar o mundo.
Talvez eu não consiga resolver todas as dores que encontro pelo caminho.
Mas, se uma palavra minha alcançar um coração cansado...
se uma reflexão minha fizer alguém pensar...
se um gesto meu devolver um pouquinho de esperança a alguém...
então toda aquela caminhada teve sentido.
Porque, no fim das contas, talvez seja isso que significa evoluir:
não chegar ao final da estrada perfeita...
mas chegar um pouco mais humana, um pouco mais consciente, um pouco mais amorosa...
e deixar, por onde passamos, algumas sementes de luz.
Dentro de mim ainda moram várias Márcias.
A menina que precisou ser forte cedo demais.
A mulher que caiu.
A mulher que chorou.
A mulher que recomeçou.
A mulher que ainda sente.
A mulher que aprendeu.
E todas elas continuam caminhando comigo...
Porque nenhuma das Márcias que fui deixou de existir.
Elas apenas foram se transformando...
até chegar a esta que hoje olha para trás, respira fundo e consegue dizer:
eu sobrevivi às minhas dores sem permitir que elas me transformassem em alguém que eu não queria ser.
E talvez essa seja a minha maior vitória.
Não ter vencido pessoas, situações ou dificuldades...
mas ter conseguido vencer, todos os dias, a vontade de desistir de mim mesma.
Um dia de cada vez...
cada dia um pouquinho...
até o reencontro.
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