quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A preguiça que ninguém consegue enxergar



Tem períodos do ano em que ficar de pé, fazer as coisas da casa, cumprir aquilo que a vida espera da gente… fica difícil.

Muito difícil.

É um desânimo que parece sobrenatural. Uma falta de energia que não se explica. O corpo pesa, os braços doem, as pernas doem, a cabeça não acompanha. E, junto com tudo isso, vem uma tristeza que, muitas vezes, nem sabemos de onde vem.

Mas, aos olhos dos outros, tudo isso pode ter um nome muito simples e muito cruel:

preguiça.

Já falei sobre isso uma vez, mas algumas coisas precisam ser repetidas, porque continuam acontecendo.

As pessoas não estão preparadas para conviver com quem tem uma doença crônica, uma doença autoimune, principalmente quando ela é invisível.

É muito difícil se colocar no lugar do outro quando você não consegue enxergar aquilo que ele sente.

Você não vê a dor.

Não vê o cansaço.

Não vê a inflamação.

Não vê o esforço necessário para realizar aquilo que, para você, parece tão simples.

Você só vê a pessoa parada.

Deitada.

Sem disposição.

E, se não existe empatia, a sentença vem rapidamente:
“Ela é preguiçosa.”

Pois é…

Já faz alguns dias que estou vivendo o meu período “preguiçosa”.

Tenho vontade de ficar na cama o dia inteiro.

Não porque não tenha coisas para fazer. Tenho.

E faço.

Faço a comida. Lavo a louça. Varro o chão. Resolvo o que precisa ser resolvido.

Mas faço tudo pagando um preço que ninguém vê.

Às vezes, depois de uma tarefa simples, meus braços doem. As pernas doem. O corpo inteiro parece pedir para parar.

E eu paro.

Não porque desisti.

Porque, naquele momento, é o que meu corpo está me pedindo.

Hoje, por exemplo, até a claridade do dia me incomoda.

É uma claridade estranha, espelhada, quase agressiva. Minha experiência já me diz que provavelmente vem chuva mais tarde. Mas, enquanto ela não chega, aquela luz me irrita, me agride.

Pode parecer exagero para quem olha de fora.

Para quem não sente, talvez seja mesmo difícil compreender.

Mas esse é o problema das doenças invisíveis: elas exigem do outro uma coisa que nem todo mundo sabe oferecer.

Compreensão sem prova.

Você precisa acreditar naquilo que não consegue enxergar.

E talvez seja justamente aí que a empatia comece.

Eu queria que as pessoas entendessem que nem todo silêncio é desinteresse. Que nem toda cama é acomodação. Que nem toda falta de energia é preguiça.

Às vezes, existe uma batalha acontecendo dentro de um corpo que, por fora, parece perfeitamente normal.

E talvez uma das coisas mais difíceis seja justamente essa: ter dor e ainda precisar explicar que está com dor.

Ter cansaço e precisar provar que não é preguiça.

Ter limitações e ainda sentir culpa por não conseguir fazer tudo.

E, no meu caso, existe ainda outra dificuldade: nem sempre é possível tratar uma doença como gostaríamos, porque existe outro problema de saúde que torna determinada medicação incompatível.

E aí a gente aprende uma lição difícil:

Há doenças que não permitem simplesmente dizer:
“tome um remédio e fique bem.”

Às vezes, a gente precisa conviver.

Adaptar.

Esperar.

Respeitar o próprio corpo.

E aprender, principalmente, a não se culpar.

Então, se hoje eu estiver mais quieta, mais cansada, se eu quiser ficar na cama, se eu não conseguir dar conta de tudo…

Talvez eu não esteja com preguiça.

Talvez eu esteja apenas fazendo o possível para atravessar mais um daqueles períodos em que o meu corpo me lembra que ele também tem limites.

E tudo o que eu gostaria, nesses dias, não é de pena.

É de compreensão.

Porque doença invisível também dói.

E, às vezes, o maior cansaço não vem da doença.

Vem de precisar convencer os outros de que ela existe.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Quando o discurso não combina com a vida... a imagem conveniente para o todo!


Quando o discurso não combina com a vida

Por que eu desconfio da sinceridade de alguns defensores da esquerda?

Talvez porque eu tenha uma dificuldade enorme de acreditar em discursos que não encontram correspondência na vida de quem os profere.

Quando vejo alguém que veio essencialmente do povo, que conhece suas dificuldades, que subiu naturalmente os degraus da vida pública sem perder as próprias raízes, sem abandonar sua essência, eu consigo compreender. Posso até discordar de suas escolhas políticas, mas existe alguma coisa ali que me faz respeitar: a coerência entre a história e o discurso.

O que me causa estranheza é quando encontro defensores fervorosos de determinadas ideias, especialmente daqueles que pregam igualdade, simplicidade e desapego às diferenças sociais, mas que não abrem mão do perfume francês, do restaurante sofisticado, da toalha de linho puro, do vestido de grife, do sapato caro, dos privilégios que criticam quando pertencem ao outro.

E não é o perfume, o restaurante, o vestido ou o sapato que me incomodam.

Cada um vive como quer e com aquilo que pode.

O que me incomoda é quando a vida contradiz o discurso e, ainda assim, tenta-se convencer o outro de que não existe contradição alguma.

Talvez eu seja particularmente sensível a isso porque reconheço as minhas próprias incoerências.

Não fui uma funcionária perfeita. Longe disso. Houve um tempo em que fui uma funcionária maravilhosa. Depois, reconheço que fui entrando em um processo de decadência profissional. E não tenho nenhuma necessidade de que alguém maquie essa história para mim. Eu sei quem fui. Sei onde acertei e onde errei.

Assumir nossas próprias falhas talvez seja uma das formas mais difíceis — e mais bonitas — de honestidade.

Por isso, não tenho nenhuma intenção de sair por aí atirando pedras em quem considero hipócrita. Até porque aquilo que eu enxergo como incoerência pode, para outra pessoa, parecer absolutamente normal. Cada um constrói sua própria régua moral, seus próprios valores e suas próprias justificativas.

O que eu não aceito é que alguém queira colocar essa régua dentro da minha casa.

Podemos ser amigos. Podemos conversar. Podemos rir juntos. Podemos admirar as mesmas pessoas, gostar das mesmas músicas, compartilhar uma mesa e até discordar de quase tudo.

Mas existem divergências que não precisam ser transformadas em guerra.

Politicamente, porém, há momentos em que simplesmente não existe acordo.

E tudo bem.

Eu não preciso convencer você para ter o direito de pensar diferente.

Assim como você não precisa me convencer para que eu respeite o seu direito de pensar.

Talvez a verdadeira liberdade esteja justamente aí: na capacidade de conviver com quem pensa diferente sem precisar transformar o outro em inimigo.

Eu só não vou engolir conceitos nos quais não acredito.

Não porque me considere dona da verdade.

Mas porque, depois de tantos anos de vida, aprendi que existe uma coisa da qual não podemos abrir mão para agradar ninguém:

a coerência com aquilo que, dentro de nós, ainda reconhecemos como verdade.

domingo, 30 de agosto de 2026

Você responde às provocações ou escolhe as batalhas da vida?

Por que não devemos discutir política com algumas pessoas?

Porque nem toda conversa é, de fato, uma conversa.

Se o teu objetivo é apresentar as ideias e os potenciais positivos do candidato em quem você acredita, fazer campanha, explicar propostas, ouvir o outro e também ser ouvido, tudo bem. A política pode e deve ser debatida.

Mas, se você percebe que do outro lado não existe disposição para ouvir, apenas para atacar, provocar, desqualificar ou transformar qualquer opinião diferente em uma ofensa pessoal, talvez seja hora de parar.

Não porque você não tenha argumentos.
Não porque tenha mudado de opinião.
E muito menos porque o outro esteja necessariamente certo.
Mas porque a vida é curta demais para transformar toda divergência em uma batalha.

Existem discussões que esclarecem.
Existem discussões que aproximam.
E existem aquelas que simplesmente drenam a nossa energia.

Aprender a reconhecer a diferença entre elas também é uma forma de inteligência emocional.

Nem todo silêncio é covardia.
Às vezes, é maturidade.
Nem toda resposta precisa ser dada.
Nem toda provocação merece ser aceita.
A gente precisa aprender a escolher as batalhas da vida.

Porque preservar a paz, em determinadas situações, não significa abrir mão daquilo em que acreditamos.

Significa apenas compreender que nem toda guerra merece a nossa presença.

Embora eu sempre escolha meu lado do muro,  diretamente não escolho o confronto... não porque medo... por preservação!

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Violência e empatia humana... um olhar triste para essa realidade...


Em que momento perdemos a humanidade?

Hoje eu me peguei pensando no ponto de violência ao qual chegamos.
E, sinceramente, estou horrorizada.

Não falo apenas dos grandes crimes que estampam os jornais. Falo da violência que parece ter se tornado banal. Da facilidade com que se tira uma vida. Da frieza com que se maltrata, se sacrifica, se judia. Pessoas contra pessoas. Pessoas contra crianças. Pessoas contra idosos. Pessoas contra animais.

E então uma pergunta não saiu da minha cabeça:
Em que momento nós voltamos aos primórdios da civilização?

Porque, se pararmos para pensar, até o homem das cavernas tinha uma razão para a violência. Ele caçava para alimentar sua tribo. Lutava para defender seu território, sua família, seu clã. A violência estava ligada à sobrevivência.

Nós, não.
Nós evoluímos.

Ou, pelo menos, era para termos evoluído.

Criamos leis, estudamos filosofia, desenvolvemos a ciência, a medicina, a tecnologia. Falamos de civilização, de direitos humanos, de respeito, de dignidade. Construímos cidades, universidades, tribunais, igrejas.

Mas o que fizemos com toda essa evolução, se ainda somos capazes de matar por tão pouco?

Hoje se mata por dinheiro, por poder, por vingança, por uma discussão. Mata-se por domínio. Mata-se porque alguém estava no lugar errado, na hora errada. E, pior, mata-se muitas vezes sem sequer demonstrar qualquer preocupação com quem está ao lado da vítima, com uma criança que assiste, com uma família que ficará destruída para sempre.

É essa falta de empatia que mais me assusta.
Essa incapacidade — ou falta de vontade — de se colocar no lugar do outro.
Parece que a dor deixou de doer quando não é na nossa carne.

O sofrimento do outro virou notícia. Estatística. Vídeo compartilhado. Comentário nas redes sociais.

E depois... seguimos para o próximo assunto.
O mundo inteiro vive tempos de violência, mas nós, brasileiros, estamos convivendo diariamente com uma realidade que parece fugir ao controle. E eu penso especialmente no Rio de Janeiro, mas também em tantos outros estados onde a população vive acuada pela criminalidade, pelo medo e pela sensação de impotência.

Há uma baderna moral instalada.

Uma crise de valores.

Uma ausência assustadora de limites.

E enquanto isso, discutimos política, culpamos este ou aquele, direita ou esquerda, governo ou oposição. Sim, os governos têm responsabilidades enormes. Os políticos deveriam ter caráter, compromisso e hombridade para cuidar do povo que os colocou onde estão. As leis precisam ser discutidas. A segurança pública precisa ser levada a sério.

Mas existe algo ainda mais profundo acontecendo.
O ser humano está perdendo a capacidade de reconhecer o outro como seu semelhante.
E quando isso acontece, qualquer coisa passa a ser possível.

Talvez o que mais me assuste não seja apenas a existência da violência.
A violência sempre existiu.
O que me apavora é a naturalidade.
É assistir a uma crueldade e, minutos depois, continuar vivendo como se nada tivesse acontecido.

É ver uma vida ser destruída e perguntar apenas: «Mas o que ele fez?»
Como se existisse alguma resposta capaz de justificar a crueldade.
Não sei em que momento chegamos até aqui.
Não sei quando a evolução do homem deixou de caminhar junto com a evolução da sua alma.

Mas sei de uma coisa:
Não podemos nos acostumar.
Não podemos achar normal ter medo de sair de casa.

Não podemos aceitar que crianças cresçam ouvindo tiros como se fosse parte da rotina.
Não podemos aceitar animais sendo torturados.

Não podemos aceitar que a vida tenha tão pouco valor.

Porque talvez o dia em que deixarmos de nos horrorizar seja o dia mais perigoso de todos.
Enquanto ainda houver alguém olhando para toda essa crueldade e perguntando, indignado, «Meu Deus, o que aconteceu conosco?», talvez ainda exista esperança.

Porque o horror diante da maldade é a prova de que, apesar de tudo, a nossa humanidade ainda não morreu.

Quando o dia muda o rumo...

Ontem foi dia de quebrar o galho do filho e ficar com o neto em casa enquanto ele saía para fazer um serviço.

Sabe aquelas mudanças de planos que chegam de surpresa e modificam completamente o nosso dia? E que, mesmo sem termos sido planejadas, acabam modificando tudo da melhor maneira possível?

Pois foi assim.

De repente, eu e meu marido ganhamos uma manhã na praia com o nosso neto. O dia estava nublado, o friozinho aparecia de vez em quando, mas para uma criança não existe tempo ruim quando existe um parquinho pela frente.

Depois veio o mercado. Depois, a casa. E então vieram as cabaninhas, o supermercado imaginário, as brincadeiras inventadas na hora e tudo aquilo que o lúdico permite quando uma criança está por perto.

Foi um dia cheio. Cheio de função, de movimento, de risadas, de pequenas descobertas e daquela oportunidade maravilhosa de olhar a vida através dos olhos de uma criança.

E querem saber? É cansativo, sim. Principalmente quando o frio chega e a fibromialgia resolve lembrar que mora comigo.

Mas existe uma coisa curiosa: quando o coração está cheio de alegria, quando a alma está ocupada por sentimentos bons, as dores continuam ali, caminhando ao nosso lado... mas parecem perder a força de atrapalhar o caminho.

Elas não desaparecem. Não deixam de doer.

Mas não interferem no prazer.

Porque há dias em que a vida muda nossos planos apenas para nos lembrar que ainda existem muitas alegrias esperando para acontecer — às vezes numa praia nublada, numa cabaninha improvisada ou num pequeno supermercado de brincadeira.

E, no fim do dia, a gente percebe que não estava apenas quebrando o galho de alguém.

Estava, sem saber, ganhando um presente. ❤️

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Vivendo o curso normal da vida...

No fim de semana, tivemos um daqueles encontros que fazem bem à alma. Estávamos em Areal, reunidos: os Olivieris e aqueles que chegaram aos Olivieris pelo caminho do amor, da amizade, dos casamentos, da vida.

Em determinado momento, meu filho olhou para mim, referindo-se à minha neta, que já está entrando naquela fase entre os dez e os onze anos, e disse:

— Tá vendo, mãe? Olha só... Agora ela não quer mais saber da vovó, não quer mais perder tempo com a vovó nem com o papai. Você ainda prefere se sacrificar para comprar uma bebê reborn nova, o vestido de caipira mais caro?

E eu sorri.

Mas não sorri porque não houvesse verdade no que ele dizia. Sorri porque havia muito mais preocupação naquele comentário do que realmente preocupação comigo. Havia ali a dorzinha de um pai percebendo que a filha está crescendo.

Eu entendo.

Também já estive naquele lugar.

Houve um tempo em que eu era apenas mãe. E, como toda mãe, também acompanhei meus filhos deixando, pouco a pouco, algumas coisas para trás. A infância vai dando lugar a outras vontades, outros interesses, outras companhias. E nós, adultos, às vezes confundimos esse movimento natural com afastamento.

Quando eles preferem os amigos, pensamos que não querem mais estar conosco.

Quando começam a fazer escolhas próprias, sentimos que estamos perdendo espaço.

Quando já não querem brincar como antes, quase perguntamos, em silêncio: “Em que momento você deixou de precisar tanto de mim?”

Mas a maturidade foi me ensinando, especialmente através dos netos, que crescer não é deixar de amar.

É apenas crescer.

É descobrir o mundo para além do colo da mãe, da mão do pai, da brincadeira com a avó.

É começar a fazer escolhas. Ter preferências. Ser seletivo. Querer aquilo que os adultos, muitas vezes, não entendem. Uma bebê reborn. Um vestido de caipira mais bonito. Uma tarde com os amigos. Um mundo que, aos poucos, começa a ser deles.

E nós precisamos aprender a não transformar cada passo de independência em uma sensação de abandono.

Porque talvez não estejamos perdendo espaço.

Talvez estejamos apenas precisando aprender a ocupar um lugar diferente.

Hoje eu entendo que o meu amadurecimento protege os meus netos. Protege-os da culpa de crescer. Da obrigação de permanecerem pequenos para que os adultos não sofram. Uma criança precisa poder mudar, escolher, experimentar, afastar-se um pouquinho e voltar, sem sentir que está machucando quem a ama.

Mas o meu amadurecimento também protege a mim.

Porque, quando compreendemos o curso natural da vida, não enxergamos todas as mudanças como perdas.

Aquela menina que hoje já não quer passar tanto tempo brincando com a vovó não deixou de amar a vovó.

Ela está apenas crescendo.

E o meu filho, naquele instante, talvez ainda estivesse aprendendo a ser pai de uma menina que já não é tão menina.

Eu olhei para ele e sorri porque hoje sei de uma coisa que talvez só o tempo ensine:

Não devemos tentar impedir que eles cresçam para que continuem precisando de nós.

Precisamos crescer junto com eles, para que, mesmo quando não precisarem mais de nós como antes, continuem querendo voltar para nós.

Porque o colo muda.

As conversas mudam.

As brincadeiras mudam.

O tempo junto muda.

Mas o amor...

Ah, o amor não precisa diminuir.

A vida apenas segue o seu curso.

E nós, que amamos, precisamos aprender a acompanhá-la. ❤️


Explicando felicidade...

Um fim de semana para guardar no coração

Este fim de semana foi especial...

Foi encontro com a família. Encontro com Deus. Encontro com a natureza. Foi, acima de tudo, um encontro com aquela parte de nós mesmos que, muitas vezes, a correria da vida acaba deixando esquecida.

Em alguns momentos, eu olhava para mim, para o meu marido, para minha cunhada Maria Augusta e para o meu cunhado Fernando e, por alguns instantes, conseguia enxergar dentro de nós aqueles quatro jovens de quarenta anos atrás. Era impossível não recordar tudo o que vivemos juntos, tudo o que atravessamos, tudo o que o tempo levou e tudo o que, apesar do tempo, permaneceu.

Maria Augusta e Fernando foram padrinhos de um filho meu que hoje está no céu. Eles também conheceram, à sua maneira, a dor de ver um filho daquela família partir. E, ainda assim, este não foi um fim de semana de tristeza. Pelo contrário. Foi um fim de semana de paz, de leveza, de risadas, de memórias e de uma tranquilidade que há muito tempo eu não sentia.

Havia uma vibe boa no ar. Daquelas que a gente não sabe explicar, apenas sente. E eu senti. Senti a presença de Deus, o abraço da natureza e o conforto insubstituível de estar perto de quem faz parte da nossa história.

Espero, de coração, que possamos repetir mais vezes momentos assim. Com o Lourencinho, a Luana, as crianças, com a Paola vindo da Noruega com o marido e os filhos... Que a vida nos conceda mais encontros, mais mesas compartilhadas, mais abraços e mais tempo juntos.

Porque, no fim das contas, eu acredito que a vida só encontra seu verdadeiro sentido quando exercemos o sentido da família.

E talvez seja isso que eu tenha vivido neste fim de semana: a certeza de que, apesar do tempo, das perdas e das mudanças que a vida impõe, ainda existem lugares onde a alma descansa.

E um desses lugares é, sem dúvida, junto da família.

As músicas e os amores abafados no fundo da alma...

Há músicas que não foram feitas para tocar no rádio. Elas vivem dentro de nós.

Basta ouvir os primeiros acordes e, sem pedir licença, elas abrem portas que jurávamos trancadas. Trazem de volta um perfume, um abraço, um olhar, uma rua, uma tarde de chuva, um amor que nunca encontrou coragem para florescer.

Existem amores que não terminam. Apenas se calam.
Ficam abafados sob as responsabilidades da vida, escondidos atrás das escolhas que fizemos, das renúncias que aceitamos e dos caminhos que seguimos. Não morrem. Apenas aprendem a respirar bem devagar, no fundo da alma.

E, então, um dia qualquer, uma música toca.
De repente, o tempo deixa de existir. O coração reconhece aquilo que a razão passou anos tentando esquecer. É como reencontrar uma parte de nós que permaneceu intacta, esperando apenas o som certo para despertar.

Talvez seja por isso que as músicas tenham tanto poder. Elas não nos fazem lembrar apenas das pessoas. Elas nos devolvem quem éramos quando as amávamos.

E descobrimos que algumas melodias são, na verdade, cartas que a vida escreveu para a nossa memória. Cartas que jamais foram rasgadas, apenas guardadas na gaveta mais silenciosa do coração.

Porque há músicas que acabam.
Mas existem amores que continuam vivendo, abafados e guardados no fundo da alma, esperando apenas uma canção para voltar a respirar.

QUANDO O ONTEM AINDA ECOA...🌪🌬🌀



Os ventos extremos de ontem provocaram um medo devastador. Um medo que não nasceu apenas da força da natureza, mas da consciência da nossa própria impotência diante dela.

Enquanto ouvia os avisos e as recomendações, uma sucessão de perguntas tomou conta de mim. Será que as janelas vão estilhaçar? Será que vou presenciar uma tragédia? Como vou proteger, sozinha, as crianças e os animais, se alguma coisa realmente acontecer?

Foi assustador.

Mas, passada a tensão, ficou uma constatação ainda mais forte: nós, como povo, ainda não estamos preparados para enfrentar eventos como esse.

Não podemos dizer que faltaram alertas. A Defesa Civil e os órgãos de monitoramento cumpriram o seu papel. As informações chegaram, os avisos foram feitos, as orientações foram divulgadas.

O que continua faltando é um planejamento permanente. Falta uma estrutura que prepare as cidades, fortaleça os municípios, integre os estados e transforme a prevenção em prioridade. Não para combater a natureza — porque isso jamais será possível —, mas para minimizar os danos, proteger vidas e reduzir o sofrimento.

Os acontecimentos de ontem me fizeram pensar em como a vida muda de direção em questão de segundos. Uma rajada de vento foi suficiente para nos lembrar de que não controlamos tudo. Basta um instante para que nossas certezas balancem junto com as árvores.

Talvez o maior desafio não seja impedir que as tempestades aconteçam, mas decidir o que elas deixarão em nós quando passarem.

A dor pode endurecer o coração ou amadurecer a alma. O medo pode nos paralisar ou nos ensinar a valorizar ainda mais a prevenção, a solidariedade e cada amanhecer.

Ontem passou. As consequências, talvez, ainda permaneçam. Mas hoje continua sendo um convite para aprender. Porque, quando a natureza fala, ela nos lembra, com toda a sua força, de algo que muitas vezes esquecemos: somos profundamente frágeis. E reconhecer essa fragilidade talvez seja o primeiro passo para construirmos uma sociedade mais preparada, mais responsável e mais humana.


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

EM QUE MOMENTO NÓS NOS PERDEMOS?


Em que momento nós nos perdemos?

Há imagens que a gente assiste e gostaria de poder esquecer.

Mas algumas imagens não deveriam ser esquecidas.

Um pai caminhando tranquilamente com a filha pequena, aparentemente a caminho da escola. Uma criança ao seu lado, seguindo a rotina de qualquer manhã. Até que um carro se aproxima e, segundo o que mostram as imagens, homens atiram contra ele sem demonstrar qualquer preocupação com a presença daquela criança.

O motivo que levou à execução não é o que quero discutir aqui.

Porque existe algo ainda mais assustador do que tentar compreender por que alguém decidiu matar outro ser humano: é perceber que, naquele momento, aparentemente não houve sequer a preocupação de poupar uma criança do horror.

E isso me faz pensar que alguma coisa muito profunda se rompeu.

Durante muito tempo, mesmo no universo brutal da criminalidade, existiam limites que pareciam ser reconhecidos. Crianças, idosos, famílias... havia, ou pelo menos se imaginava haver, determinados códigos que não deveriam ser ultrapassados.

Hoje, até isso parece estar desaparecendo.

A vida humana está sendo banalizada.

A morte virou uma cena cotidiana. Um corpo no chão, tiros disparados em plena rua, pessoas correndo, alguém filmando, alguém comentando nas redes sociais... e, pouco depois, seguimos para o próximo assunto.

Como se a vida tivesse perdido o seu valor.

Como se matar fosse apenas mais um acontecimento.

E o que mais me assusta é que não estamos falando apenas de criminosos cada vez mais violentos. Estamos falando de uma sociedade que está sendo obrigada a conviver diariamente com o medo, com a insegurança e com a sensação de que ninguém está realmente protegido.

Hoje é um pai levando a filha para a escola.

Amanhã pode ser alguém indo trabalhar.

Uma mãe voltando para casa.

Um idoso atravessando a rua.

Uma criança brincando na calçada.

Quem será o próximo?

E não estou falando de uma cidade específica. O problema ultrapassou fronteiras. É um sentimento que alcança diferentes lugares deste país.

E nós vamos ficando cansados.

Cansados de assistir.

Cansados de sentir medo.

Cansados de ouvir histórias de pessoas assassinadas, assaltadas, sequestradas, vítimas de uma violência que parece não encontrar mais freios.

Cansados de precisar calcular caminhos, horários, lugares e riscos.

Cansados de tentar proteger quem amamos.

E talvez o mais perverso de tudo seja isso: a violência não mata apenas pessoas. Ela vai matando, aos poucos, a nossa sensação de liberdade.

A gente começa a ter medo de sair.

Medo de voltar.

Medo de estar no lugar errado, na hora errada.

Medo por nossos filhos, nossos netos, nossos pais.

E como continuar vivendo assim sem adoecer por dentro?

Como não sentir angústia diante de um mundo em que uma criança pode presenciar o assassinato do próprio pai simplesmente porque estava caminhando ao lado dele?

Eu me pergunto, sinceramente:

Em que momento nós nos perdemos enquanto humanidade?

Em que momento a vida passou a valer tão pouco?

Em que momento a crueldade deixou de chocar?

Em que momento uma criança deixou de ser um limite?

E, principalmente, até onde nós vamos?

Eu não tenho uma resposta.

Mas ainda quero acreditar que existe salvação.

Porque, se eu deixar de acreditar nisso, então a violência terá conseguido levar mais do que vidas. Terá levado também a nossa esperança.

Talvez a salvação comece justamente quando a gente se recusa a considerar o absurdo normal.

Quando uma morte ainda nos revolta.

Quando uma criança ainda nos faz parar e pensar.

Quando nos recusamos a dizer simplesmente: “É assim mesmo.”

Não. Não deveria ser assim.

Uma sociedade que perde a capacidade de se indignar diante da morte já começou a morrer também.

Por isso, diante dessas imagens, eu não quero apenas sentir medo.

Quero fazer a pergunta que talvez todos nós precisemos fazer:

Que país estamos deixando para nossas crianças?

E, se ainda houver salvação — e eu quero acreditar que há —, talvez ela comece quando decidirmos que a vida humana precisa voltar a ter valor.

Toda vida.

Sem exceção.

Porque quando uma criança deixa de ser um limite para a violência, não é apenas aquela família que está em perigo.

Somos todos nós.